
Definir o que aconteceu no dia 14 de novembro de 2009 no TEDxSP é como tentar definir aquelas coisas invisíveis e imateriais que preenchem o espaço que nos separa. Sempre fui uma aficionada pelas TED Talks, e quando soube que haveria um TEDx no Brasil fiquei em chamas de euforia, e me inscrevi já no primeiro dia.
Com o tema “O que o Brasil tem a oferecer ao mundo agora?”, o TED tupiniquim reuniu 30 dos pensadores e realizadores mais interessantes do país (e um de fora) para debater sobre temas tão diversos quanto apaixonantes. Curioso foi que, embora os palestrantes tivessem formações e histórias totalmente diferentes entre si, houve diversos temas recorrentes: arte, oportunidade, amor, sustentabilidade, tecnologia, criatividade, ambientalismo y otras cositas más.
Segue, abaixo, um resumão das coisas que foram mais impactantes pra mim nesse samba-do-crioulo-doido das boas ideias.
Antônio Veiga
Evoluir é transformar e transformar-se
Partindo de uma metáfora análoga à expansão de matéria contraída que deu origem ao universo, o psicólogo gaúcho Antônio Veiga estabeleceu uma perspectiva material da emoção, ao explicar que “todo átomo é pulsante”. Daí em diante, Veiga construiu uma das falas mais corajosas do dia, que começou abordando as relações humanas sob a perspectiva da terapia de revivência transpessoal (TRT), estabelecendo a verdade inegável de que só conseguimos amar a nós mesmos, mas precisamos amar a nós mesmos através do outro. Destemidamente, Veiga propôs uma definição circunferencial de amor e a negação da religião em benefício da liberdade e da espiritualidade.
Ponto alto: “Somos infelizes porque fomos ensinados a ‘amar errado’”.
Augusto de Franco
A cooperação é um atributo do modo como os seres humanos se organizam
A apresentação de Augusto de Franco foi, certamente, uma das mais faladas e “ovobabadas”, merecidamente. A partir de sua experiência com esforços de induzir desenvolvimento local, esse tecelão de redes sociais deu a todos os presentes um fantástico panorama teórico e crítico sobre estrutura e natureza das redes, capital social como fator sistêmico do desenvolvimento e identidades sociais que só se revelam através dessas tramas invisíveis que ligam os membros de uma comunidade ou sociedade.
Ponto alto: a distraída menção ao “espaço/tempo dos fluxos”. <3
Casey Caplowe
Nosso objetivo é gerar o máximo de bem e o máximo de lucro possíveis
O que eu gosto na revista Good, de Casey Caplowe, é a forma como sua proposta editorial dissocia o capitalismo do mal, e propõe um modelo de sustentabilidade viável dentro do nosso sistema político. A idéia de que iniciativas que geram o bem (para todas as partes) podem ser lucrativas é potencialmente revolucionária, e é um tema cada vez mais em pauta (vide o filme The New Recruits). A revista ainda trabalha dentro de uma tradição de design pós-moderno com infográficos nos moldes da pioneira revista americana Spy. Casey propõe, com base no Awesome Manifesto de Umair Haque, que a inovação não será o suficiente no futuro, porque a inovação se baseia em algo já obsoleto, enquanto algo incrível independe de contexto, e para isso a criatividade é essencial.
Ponto alto: o infográfico demonstrando a idéia de “good” como o ponto de intersecção entre você e o mundo, desbancando a idéia de altruísmo abnegado.
Guti Fraga
Fui um pobre que teve todas as oportunidades na vida
Guti Fraga contou, em uma palestra cheia de entusiasmo, que levou muita gente (inclusive eu) às lágrimas, sua história de vida com o projeto Nós do Morro, “surfando durante 23 anos numa onda sem volta”, combatendo o estereótipo da favela e construindo um grupo de teatro experimental, criando oportunidades e dividindo sua vida com jovens, através da arte (uma experiência que ele classifica como “sem fim”) e de uma filosofia de vida com base no coletivo. O vídeo tem a palestra inteira: vale cada segundo.
Ponto alto: “A malandragem é universal”
João Paulo Cavalcanti
O Brasil pode se tornar a “Suíça das ideias”
A apresentação do excelentíssimo Sr. pai da Dora foi de um ufanismo refrescante e poético. Mobilizando conceitos tão diversos quanto o poder do mito, manifest destiny e a “nova auto-estima” da juventude brasileira, João propôs que o Brasil – a mais jovem das nações do BRIC – precisa encontrar seu sonho nacional para verdadeiramente transformar-se através da diversidade de ideias.
Ponto alto: “A nação que não possui um sonho não é nação” (tuitando Dostoievski)
Luiz Algarra
Ser livre para amar através da percepção do outro
Introduzindo o interessantíssimo conceito de biologia cultural, Algarra começou com um “solilóquio reflexivo” sobre a forma como tudo é determinado por nossa estrutura biológica cultural na relação antroposfera x biosfera. Respondendo à pergunta tema do evento, ele propôs que o que o Brasil tem a oferecer ao mundo é um novo olhar, o “brasileirar” — uma matriz multirelacional de entrelaçamentos consensuais no fluir da amorosidade e da abundância.
Ponto alto: “O Brasil possui em sua epigênese uma mestiçagem viva; ainda estamos nos apaixonando uns pelos outros.”
Osvaldo Stella
Foi no coração da selva que eu entendi que não sabia nada
Em uma fala espontânea e entusiasmante, Osvaldo Stella (fundador da ONG Iniciativa Verde) contou sua história, desde o tempo em que lia Crumb nas aulas de cálculo no curso de engenharia até o insight diante da miséria, no interior da floresta amazônica. O lance principal é perceber como o conhecimento te dá as ferramentas para atingir o que se quer.
Ponto alto: “peço desculpas ao pessoal que fez minha apresentação, porque eu não vou usar”.
Paulo Saldiva
O homem como ponto central da questão ambiental
O patologista Paulo Saldiva introduziu uma das ideias mais provocantes do dia, o conceito de racismo ambiental: de dentro da luxuosa caminhonete 4×4, os níveis de poluição não são os mesmos de quem está parado durante 20 minutos no ponto de ônibus. Em outras palavras: quem paga a conta da poluição é quem menos contribui para ela. Com muitas metáforas médicas e uma honestidade desconcertante, Saldiva expõe a hipocrisia da política “verde” das corporações e revela a triste verdade: estamos mais preocupados com o panda do que com nossos semelhantes do lado de lá do vidro do carro.
Ponto alto: os comentários bem humorados sobre a política ambiental das empresas petrolíferas, que “fazem chapinha no mico-leão dourado”.
Roberta Faria
Se você construir, eles virão
Roberta Faria contou como obteve sucesso com um modelo multiplicador na revista Sorria, feita para arrecadar fundos para o hospital do câncer. Em uma palestra altamente motivadora e inspirada, a jornalista revelou os vícios do mercado editorial e mostrou que através da inovação e da criatividade é possível atingir o que parece inatingível.
Ronaldo Lemos
Belém do Pará é a cidade do Brasil com o maior número de máquinas de raio laser por habitante
Ronaldo Lemos deu uma apresentação extraordinária sobre a apropriação da tecnologia por parte das periferias globais, partindo da revolução das LAN houses (O Brasil tem 2 mil salas de cinema e 90 mil LAN houses – só a favela da Rocinha conta com mais de 150). Um dos exemplos mais interessantes do impacto econômico e social dessa apropriação é a indústria do Tecnobrega no Pará, que lança 400 CDs e 100 DVDs por ano, com um acordo de distribuição direto com os camelôs. Ronaldo mostrou exemplos similares em periferias do mundo inteiro, e falou também sobre o impacto que a tecnologia tem sobre a democracia, chamando atenção para o Marco Civil da Internet, que pode vir a ser a primeira lei colaborativa do mundo.
Ponto alto: quando Chris Anderson, da Wired, veio ao Brasil, sua única exigência foi encontrar-se com Gabi Amarantos.
Silvio Meira
O mundo em modo β para sempre
Infelizmente tive que ir ao banheiro e perdi o início da empolgante fala do Silvio Meira, do C.E.S.A.R.. Quando retornei, tive que assistir pelo monitor, e lamentei profundamente não poder entrar na sala (devido à entrada de luz, só era possível entrar no auditório no intervalo entre palestras). Silvio falou de tecnologia de uma forma relevante para o modo como pensamos educação (propondo o conceito de just in time ao invés do atual modelo just in case), sustentabilidade e até mesmo de evolução.
Ponto alto: “Não somos especiais.”
Fernando Barreto
O que eles estão fazendo com nossos desejos?
Fernando Barreto apresentou a revolucionária proposta do site Vote na Web — lançado por ocasião do TED e do aniversário das primeiras eleições diretas no Brasil (15/11). Nele, eleitores e futuros eleitores podem, através de uma interface simples e intuitiva, ter acesso aos projetos que estão sendo votados pela câmara e pelo senado e não apenas monitorar a discrepância entre o desejo dos eleitores e as ações dos parlamentares, mas também analisar os votos dos políticos, ler e comentar projetos de lei, e descobrir quais os políticos com quem têm maior afinidade. Iniciativa absolutamente sensacional.
Ponto alto: “É asqueroso ter que ir atrás dessas informações.”
Fernanda Viégas
Dados são apenas números
Em uma palestra que me lembrou muito as falas de Hans Rosling no TED global, a brilhante designer de informação Fernanda Viégas apresentou o projeto Many Eyes, desenvolvido em parceria com a IBM. Partindo da ideia de que estaríamos à beira de uma revolução, e que essa revolução será construída com dados, ela criou uma ferramenta capaz de tornar esses dados visualizáveis e interpretáveis por qualquer um. E não se trata de um conjunto estático: todo mundo pode usar suas tabelas e até mesmo arquivos de texto para visualizá-los de modo intuitivo e entender melhor o tecido dos números e palavras com que poderemos construir nossa revolução de informação.
Ponto alto: A demonstração da ferramenta com resumos de novela: hilariante.
Houve muitos outros palestrantes e coisas legais, isso sem falar na riqueza humana da plateia, que durante os intervalos roubava a cena. Mas esses foram, para mim, os momentos mais impactantes de forma direta. Assim que os vídeos estiverem no ar, na íntegra, colocarei link para todos.
Para encerrar esse longuíssimo post, queria agradecer toda a equipe que idealizou e organizou o TEDxSP, e todo mundo que estava lá pra compartilhar esse momento comigo.

Talvez por inveja do pênis, talvez pelo horror às neuroses da geração anterior ou por uma forte afeição ao sutiã e aos seus benefícios, durante quase toda a adolescência me autoproclamei machista. Continuo sem ter quase nada em comum com o estereótipo mulherzinha, mas venho me tornando progressivamente mais feminina, e principalmente, menos machista.
É claro que essa mudança de posicionamento tem tudo a ver com as experiências que eu tive ao longo dos anos, como por exemplo perceber que certas coisas assumem valores e cargas diferentes com base no gênero (uma piada pode ou não ser engraçada, um comentário pode ou não ser informado, etc.), e talvez a coisa mais gritante foi me dar conta de que a função social da mulher é, em quase todos os círculos sociais mistos (e alguns não-mistos), a de ser bela, ou ao menos comível.
Olhando retroativamente para as idéias (com acento! com acento!) que eu tinha sobre gênero aos 18 anos, percebo o quão pós-feminista eu me tornei. E, sim, caso você esteja se perguntando, o prefixo pós se faz necessário. E como.
Sendo assim, achei que seria interessante desbancar (ou ao menos re-discutir), 10 anos depois, os três principais argumentos que eu usava para me autoproclamar machista aos 18.
1. a maioria das mulheres é burra e superficial. as mulheres fazem a manutenção do patriarcalismo e se aproveitam dele para não evoluir, para continuar se objetificando.
Ainda me irrito com mulheres burras e superficiais, e de certa forma responsabilizo elas pela perpetuação de alguns ranços de gênero. Acho ainda que o problema da objetificação é um problema de responsabilidade compartilhada, mas a verdade é que objetificação, pós-revolução sexual, não é um assunto simples. Se uma mulher escolhe se objetificar, fica difícil dizer que ela seja vítima de um establishment perverso. Mas acho que meu principal motivo para acreditar na falácia era, na verdade, o fato de achar que mulher inteligente era um estereótipo. Hoje em dia conheço mulheres extremamente inteligentes que fazem a mão toda semana, adoram fazer chapinha, colecionam bolsas, perfumes e sapatos e querem mais é ser objetificadas, se vistas assim por um ponto de vista bem binário. O fato de elas gostarem de todas essas coisas não as torna menos inteligentes. Algumas mulheres simplesmente gostam de “pensar feito Churchill e se vestir feito Madonna”.
2. as mulheres são tão competitivas que não é possível confiar nelas. logo, os homens são melhores, como amigos.

É bem verdade que a maioria numérica de meus amigos é composta por homens, mas qualitativamente, toda mulher precisa de uma melhor amiga. Vou mais longe, inclusive. Mulheres que não têm pelo menos uma amiga do mesmo sexo muito provavelmente não são de confiança. Os exemplos estão aí, e por mais que eu e minhas amigas não conversemos sobre sapatos e meninos (pelo menos não como tópicos principais), é inestimável a sensação de ter uma melhor amiga pra conversar nos momentos alegres e nas horas sombrias. Não estou, com essa declaração, tentando diminuir a importância de meus amigos homens, mas o fato é que a maioria deles me trata como um semi-homem, uma amiga/amigo, e isso é, de certa forma, machista. Porque meus amigos incorrem no mesmo erro sobre o qual discorri acima: o de considerar que se uma mulher é inteligente, ela é anormal e deve, portanto, ser tratada como destacada do gênero (o que é, ao mesmo tempo, lisongeiro e bizarro).
3. a revolução sexual foi um atraso na vida das mulheres heterosexuais.

Essa era a mais idiota das minhas ideias machistas, sem dúvida. A questão problemática aqui é não apenas uma homofobia velada (com a qual foi mais fácil lidar depois de assumir), mas também uma negação do patriarcalismo, negação essa que foi (sem dúvida) produto de um ambiente familiar razoavelmente protegido durante os anos de formação. Entender e sentir na pele as formas de marginalização das mulheres me fez valorizar muito mais os sacrifícios das gerações anteriores. Ou, como disse de forma brilhante uma amiga, certa feita, agradecer “àquelas mulheres que deram suas vidas para que nós, hoje pudéssemos fazer o que bem entendêssemos com nossas bucetas”.
Bem, por ora era isso.

1. Use o tempo de um completo estranho de forma tal que ele(a) não sentirá que perdeu seu tempo.
2. Dê ao leitor pelo menos um personagem por quem ele(a) possa torcer.
3. Todo personagem deve querer algo, mesmo que seja apenas um copo d’água.
4. Toda frase deve fazer uma de duas coisas — revelar personagem ou avançar a ação.
5. Comece o mais próximo possível do fim.
6. Seja sádico. Não importa o quão doces e inocentes sejam seus personagens principais, faça acontecer com eles coisas terríveis — para que o leitor possa ver do que eles são feitos.
7. Escreva para agradar a uma única pessoa. Se você abre uma janela e faz amor com o mundo inteiro, por assim dizer, sua história vai pegar pneumonia.
8. Dê aos seus leitores toda a informação possível. Pro inferno com o suspense. Os leitores devem ter um entendimento completo do que está acontecendo, onde e quando, para poderem, eles mesmos, terminarem a história caso baratas devorem as últimas páginas.
– Vonnegut, Kurt Vonnegut, Bagombo Snuff Box: Uncollected Short Fiction (New York: G.P. Putnam’s Sons 1999), 9-10.

De vez em quando alguém me pergunta, na faculdade, porque eu faço curso de tradução (há milênios, inclusive, mas o fim se aproxima). Quando estou de bom humor, respondo a verdade: sou uma daquelas pessoas que queria ser tradutora quando crescesse.
Desde que comecei, aos 17, a traduzir uns poemas e sonhar em ser “Irmãos Campos-Rimbaud-John Lennon” da contemporaneidade (sempre megalômana), mudei muito a forma de pensar sobre o ofício. Lembro com saudade da disciplina de Linguística e Tradução do querido Prof. Pedro Garcez, que na época explodiu minha cabeça com um mundaréu de não-obviedades inestimáveis que me obrigavam a rever o ideal. Hoje, muitos anos e milhões de palavras depois, cheguei ao que eu considero ser minha teoria da tradução, e gostaria de compartilhá-la com vocês.
Em primeiro lugar, quando falo de tradução estou falando de maneira geral, não me referindo somente à tradução literária, como é comum nessas conversas de “alto nível” sobre o assunto. O processo de traduzir um poema e um contrato tem muito mais em comum do que pensamos, embora os riscos e pormenores sejam imensamente diferentes. Enfim, vamos lá.
Minha tese é a de que o ofício do tradutor é muito semelhante ao ofício do ator. O tradutor é um ator do texto. Ator é o agente, o cara que atua, que desempenha uma ação.
O ofício do ator sempre me pareceu fascinante, e me parece que o é para a maioria das pessoas. Atores e atrizes povoam nosso imaginário, de Theda Bara a Kate Winslet, de Rodolfo Valentino a Adrian Brody. E apesar de estar em desuso, engolido cada vez mais pela velha onda de empregar modelos ao invés de atores em produções dramáticas, o ofício do ator está longe da extinção. Há grandes atores, ainda. O mundo precisa deles, mesmo que sejam feios. Mesmo que estejam velhos e se recusem a usar botox (apesar de que a Fernanda Montenegro sucumbiu).
A diferença entre um ator “bom” e um ator “ruim” (os modelos de que já falei) é que o ator ruim finge fazer algo, enquanto o ator bom torna-se esse algo. E isso não acontece por talento. O cara pesquisa, estuda, se prepara, e encontra algo dentro da sua experiência de mundo que abre a porta para que ele se torne aquela coisa. Não importando o “método” do ator, para a catarse do público, para que seja eficaz a empreitada dramática, não basta ser convincente, tem que ser NATURAL. Quando o espectador vê o gesto do ator como verdadeiro, o objetivo foi atingido, e a platéia fica contente, satisfeita e certa de que seu dinheiro (ou tempo) foi bem investido.
Pois bem, a tradução funciona com um processo muito semelhante, ao meu ver, mas ao invés do gesto físico, do som físico, da presença física, nosso ofício se esconde na imaterialidade da página escrita em uma tela. O texto de partida é o material de estudo, as referências, a observação. No último ano, tive o prazer de trabalhar com uma grande profissional da escrita, minha querida chefinha, a Claudia Buchweitz (que coincidentemente é casada com o professor que explodiu meu cérebro lá nos idos de 2004), e observar o método de trabalho dela me deu uma nova perspectiva sobre o que é “fazer um bom trabalho” em tradução. Da forma como o vejo, o ofício do tradutor depende de sua capacidade de ver e pesquisar além das palavras do texto, encontrar em sua visão de mundo um espaço para toda essa carga de informação e produzir com segurança (uma segurança embasada por muita pesquisa e preparo, como os bons atores) um texto natural, verdadeiro. O tradutor-modelo finge o gesto para se fazer passar por algo que não é, enquanto o tradutor-ator, ciente do seu ofício, torna-se algo que não é, ainda que pela duração do trabalho.
Não estou tentando sugerir que toda tradução é um trabalho criativo. Pelo contrário, minha proposta é bem mais simples. Acredito apenas que, para produzir um texto natural, para saber onde está “faltando uma conjunção”, onde é necessário dividir uma frase, ou inserir uma explicação, é necessário colocar-se na pele de autor. Saber o suficiente sobre o assunto para entender qual é o gesto textual necessário para que o texto cumpra seu objetivo (que no caso da literatura é catarse, mas no caso de um contrato pode ser, simplesmente, expressar a melhor imagem do cliente). Em termos mais técnicos, isso tudo pode ser destrinchado, claro: gênero, sintaxe, registro, terminologia. Mas o processo intuitivo é também essencial na trajetória das pesquisas e nos caminhos lógicos que levam às escolhas. A naturalidade não pode ser ensinada através de polígrafo, seu entendimento real se dá na interação com cada texto.
Pretendo qualquer hora dessas ter tempo para elaborar mais sobre o assunto, mas por enquanto chega. Talvez caiba agradecer aos meus mentores profissionais e colegas pela oportunidade de estar fazendo o que eu queria fazer quando crescesse. E já que estamos nessa onda de thanksgiving, agradeço também à consciência aleatória do caos, que me permitiu conhecer e trabalhar com as pessoas brilhantes que me acompanham nessa brincadeira.
UPDATE: A Carol Alfaro já tinha divagado sobre o assunto, em 2006. E o grande Danilo Nogueira tocou na ferida ainda em 2008. Pensamentos flanam.

i got all that stuff i wish i could tell you
but then i get all stiff and can’t say a word
like that time i wanted to tell you how i faked it for love
but then didn’t want to hurt your pride
and could picture you yelling and then sulking and then calling me a liar
so i don’t tell you all that stuff i wanted to say
and just sit silently over a cup of coffee thinking
about how i wish lovers could say anything
but then i remember that everytime i tried this i failed
and just go back to sipping the coffee, bitter, sugarless
and look up from the cup and you’re there
more beautiful than beauty itself
so i shut up and fake it
and you will never know
that i faked it for love