Femichismo

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Talvez por inveja do pênis, talvez pelo horror às neuroses da geração anterior ou por uma forte afeição ao sutiã e aos seus benefícios, durante quase toda a adolescência me autoproclamei machista. Continuo sem ter quase nada em comum com o estereótipo mulherzinha, mas venho me tornando progressivamente mais feminina, e principalmente, menos machista.

É claro que essa mudança de posicionamento tem tudo a ver com as experiências que eu tive ao longo dos anos, como por exemplo perceber que certas coisas assumem valores e cargas diferentes com base no gênero (uma piada pode ou não ser engraçada, um comentário pode ou não ser informado, etc.), e talvez a coisa mais gritante foi me dar conta de que a função social da mulher é, em quase todos os círculos sociais mistos (e alguns não-mistos), a de ser bela, ou ao menos comível.

Olhando retroativamente para as idéias (com acento! com acento!) que eu tinha sobre gênero aos 18 anos, percebo o quão pós-feminista eu me tornei. E, sim, caso você esteja se perguntando, o prefixo pós se faz necessário. E como.

Sendo assim, achei que seria interessante desbancar (ou ao menos re-discutir), 10 anos depois, os três principais argumentos que eu usava para me autoproclamar machista aos 18.

1. a maioria das mulheres é burra e superficial. as mulheres fazem a manutenção do patriarcalismo e se aproveitam dele para não evoluir, para continuar se objetificando.

Ainda me irrito com mulheres burras e superficiais, e de certa forma responsabilizo elas pela perpetuação de alguns ranços de gênero. Acho ainda que o problema da objetificação é um problema de responsabilidade compartilhada, mas a verdade é que objetificação, pós-revolução sexual, não é um assunto simples. Se uma mulher escolhe se objetificar, fica difícil dizer que ela seja vítima de um establishment perverso. Mas acho que meu principal motivo para acreditar na falácia era, na verdade, o fato de achar que mulher inteligente era um estereótipo. Hoje em dia conheço mulheres extremamente inteligentes que fazem a mão toda semana, adoram fazer chapinha, colecionam bolsas, perfumes e sapatos e querem mais é ser objetificadas, se vistas assim por um ponto de vista bem binário. O fato de elas gostarem de todas essas coisas não as torna menos inteligentes. Algumas mulheres simplesmente gostam de “pensar feito Churchill e se vestir feito Madonna”.

2. as mulheres são tão competitivas que não é possível confiar nelas. logo, os homens são melhores, como amigos.

É bem verdade que a maioria numérica de meus amigos é composta por homens, mas qualitativamente, toda mulher precisa de uma melhor amiga. Vou mais longe, inclusive. Mulheres que não têm pelo menos uma amiga do mesmo sexo muito provavelmente não são de confiança. Os exemplos estão aí, e por mais que eu e minhas amigas não conversemos sobre sapatos e meninos (pelo menos não como tópicos principais), é inestimável a sensação de ter uma melhor amiga pra conversar nos momentos alegres e nas horas sombrias. Não estou, com essa declaração, tentando diminuir a importância de meus amigos homens, mas o fato é que a maioria deles me trata como um semi-homem, uma amiga/amigo, e isso é, de certa forma, machista. Porque meus amigos incorrem no mesmo erro sobre o qual discorri acima: o de considerar que se uma mulher é inteligente, ela é anormal e deve, portanto, ser tratada como destacada do gênero (o que é, ao mesmo tempo, lisongeiro e bizarro).

3. a revolução sexual foi um atraso na vida das mulheres heterosexuais.

Essa era a mais idiota das minhas ideias machistas, sem dúvida. A questão problemática aqui é não apenas uma homofobia velada (com a qual foi mais fácil lidar depois de assumir), mas também uma negação do patriarcalismo, negação essa que foi (sem dúvida) produto de um ambiente familiar razoavelmente protegido durante os anos de formação. Entender e sentir na pele as formas de marginalização das mulheres me fez valorizar muito mais os sacrifícios das gerações anteriores. Ou, como disse de forma brilhante uma amiga, certa feita, agradecer “àquelas mulheres que deram suas vidas para que nós, hoje pudéssemos fazer o que bem entendêssemos com nossas bucetas”.

Bem, por ora era isso.

As oito regras de Kurt Vonnegut para escrever ficção

1. Use o tempo de um completo estranho de forma tal que ele(a) não sentirá que perdeu seu tempo.

2. Dê ao leitor pelo menos um personagem por quem ele(a) possa torcer.

3. Todo personagem deve querer algo, mesmo que seja apenas um copo d’água.

4. Toda frase deve fazer uma de duas coisas — revelar personagem ou avançar a ação.

5. Comece o mais próximo possível do fim.

6. Seja sádico. Não importa o quão doces e inocentes sejam seus personagens principais, faça acontecer com eles coisas terríveis — para que o leitor possa ver do que eles são feitos.

7. Escreva para agradar a uma única pessoa. Se você abre uma janela e faz amor com o mundo inteiro, por assim dizer, sua história vai pegar pneumonia.

8. Dê aos seus leitores toda a informação possível. Pro inferno com o suspense. Os leitores devem ter um entendimento completo do que está acontecendo, onde e quando, para poderem, eles mesmos, terminarem a história caso baratas devorem as últimas páginas.

– Vonnegut, Kurt Vonnegut, Bagombo Snuff Box: Uncollected Short Fiction (New York: G.P. Putnam’s Sons 1999), 9-10.

A tradução como gesto textual

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De vez em quando alguém me pergunta, na faculdade, porque eu faço curso de tradução (há milênios, inclusive, mas o fim se aproxima). Quando estou de bom humor, respondo a verdade: sou uma daquelas pessoas que queria ser tradutora quando crescesse.

Desde que comecei, aos 17, a traduzir uns poemas e sonhar em ser “Irmãos Campos-Rimbaud-John Lennon” da contemporaneidade (sempre megalômana), mudei muito a forma de pensar sobre o ofício. Lembro com saudade da disciplina de Linguística e Tradução do querido Prof. Pedro Garcez, que na época explodiu minha cabeça com um mundaréu de não-obviedades inestimáveis que me obrigavam a rever o ideal. Hoje, muitos anos e milhões de palavras depois, cheguei ao que eu considero ser minha teoria da tradução, e gostaria de compartilhá-la com vocês.

Em primeiro lugar, quando falo de tradução estou falando de maneira geral, não me referindo somente à tradução literária, como é comum nessas conversas de “alto nível” sobre o assunto. O processo de traduzir um poema e um contrato tem muito mais em comum do que pensamos, embora os riscos e pormenores sejam imensamente diferentes. Enfim, vamos lá.

thedabaraMinha tese é a de que o ofício do tradutor é muito semelhante ao ofício do ator. O tradutor é um ator do texto. Ator é o agente, o cara que atua, que desempenha uma ação.

O ofício do ator sempre me pareceu fascinante, e me parece que o é para a maioria das pessoas. Atores e atrizes povoam nosso imaginário, de Theda Bara a Kate Winslet, de Rodolfo Valentino a Adrian Brody. E apesar de estar em desuso, engolido cada vez mais pela velha onda de empregar modelos ao invés de atores em produções dramáticas, o ofício do ator está longe da extinção. Há grandes atores, ainda. O mundo precisa deles, mesmo que sejam feios. Mesmo que estejam velhos e se recusem a usar botox (apesar de que a Fernanda Montenegro sucumbiu).

hamlet-48A diferença entre um ator “bom” e um ator “ruim” (os modelos de que já falei) é que o ator ruim finge fazer algo, enquanto o ator bom torna-se esse algo. E isso não acontece por talento. O cara pesquisa, estuda, se prepara, e encontra algo dentro da sua experiência de mundo que abre a porta para que ele se torne aquela coisa. Não importando o “método” do ator, para a catarse do público, para que seja eficaz a empreitada dramática, não basta ser convincente, tem que ser NATURAL. Quando o espectador vê o gesto do ator como verdadeiro, o objetivo foi atingido, e a platéia fica contente, satisfeita e certa de que seu dinheiro (ou tempo) foi bem investido.

Pois bem, a tradução funciona com um processo muito semelhante, ao meu ver, mas ao invés do gesto físico, do som físico, da presença física, nosso ofício se esconde na imaterialidade da página escrita em uma tela. O texto de partida é o material de estudo, as referências, a observação. No último ano, tive o prazer de trabalhar com uma grande profissional da escrita, minha querida chefinha, a Claudia Buchweitz (que coincidentemente é casada com o professor que explodiu meu cérebro lá nos idos de 2004), e observar o método de trabalho dela me deu uma nova perspectiva sobre o que é “fazer um bom trabalho” em tradução. Da forma como o vejo, o ofício do tradutor depende de sua capacidade de ver e pesquisar além das palavras do texto, encontrar em sua visão de mundo um espaço para toda essa carga de informação e produzir com segurança (uma segurança embasada por muita pesquisa e preparo, como os bons atores) um texto natural, verdadeiro. O tradutor-modelo finge o gesto para se fazer passar por algo que não é, enquanto o tradutor-ator, ciente do seu ofício, torna-se algo que não é, ainda que pela duração do trabalho.

skeleton_at_a_computerNão estou tentando sugerir que toda tradução é um trabalho criativo. Pelo contrário, minha proposta é bem mais simples. Acredito apenas que, para produzir um texto natural, para saber onde está “faltando uma conjunção”, onde é necessário dividir uma frase, ou inserir uma explicação, é necessário colocar-se na pele de autor. Saber o suficiente sobre o assunto para entender qual é o gesto textual necessário para que o texto cumpra seu objetivo (que no caso da literatura é catarse, mas no caso de um contrato pode ser, simplesmente, expressar a melhor imagem do cliente). Em termos mais técnicos, isso tudo pode ser destrinchado, claro: gênero, sintaxe, registro, terminologia. Mas o processo intuitivo é também essencial na trajetória das pesquisas e nos caminhos lógicos que levam às escolhas. A naturalidade não pode ser ensinada através de polígrafo, seu entendimento real se dá na interação com cada texto.

Pretendo qualquer hora dessas ter tempo para elaborar mais sobre o assunto, mas por enquanto chega. Talvez caiba agradecer aos meus mentores profissionais e colegas pela oportunidade de estar fazendo o que eu queria fazer quando crescesse. E já que estamos nessa onda de thanksgiving, agradeço também à consciência aleatória do caos, que me permitiu conhecer e trabalhar com as pessoas brilhantes que me acompanham nessa brincadeira.

UPDATE: A Carol Alfaro já tinha divagado sobre o assunto, em 2006. E o grande Danilo Nogueira tocou na ferida ainda em 2008. Pensamentos flanam. :)

Subpop #6 – 17 de outubro

professional confessional

Sad Love
i got all that stuff i wish i could tell you
but then i get all stiff and can’t say a word
like that time i wanted to tell you how i faked it for love
but then didn’t want to hurt your pride
and could picture you yelling and then sulking and then calling me a liar

so i don’t tell you all that stuff i wanted to say
and just sit silently over a cup of coffee thinking
about how i wish lovers could say anything
but then i remember that everytime i tried this i failed
and just go back to sipping the coffee, bitter, sugarless

and look up from the cup and you’re there
more beautiful than beauty itself
so i shut up and fake it
and you will never know
that i faked it for love

Fernando Chamarelli

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Adorei os trabalhos desse cara, muito orgânicos e cheios de uma complexidade deliciosamente simples. Grande dica, via @Kidids. Mais aqui.

PECHA KUCHA VOL. 07

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Subpop = melhor festa grunge

Iremos, e quem não for é veado (no mau sentido)

Oberon Tees

Eis que, não mais que de repente, recebi hoje um recado do querido e saudoso amigo Marcos Roberto da Canção Pungente, Oberon para tantos, falando das camisetinhas SUPER MASSA que ele está fazendo com stencil e muito amor no coração. Já encomendei a minha do pulp. Simplesmente tudo nessa vida, uma camiseta do Pulp.

Em breve posto mais detalhes sobre o blog transadíssimo de camisetas que ele está cozinhando, mas até lá façam suas encomendas pelo e-mail do moço: discototalARRÔUBAgmail.com.

sapatezas

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Pois deixa eu dizer pra vocês, em primeiro lugar, pra deixar tudo em pratos limpos, que odeio Sex and the City. E sim, eu agradeço à Sarah Jessica Parker por ter salvo a vida do Robert Downey Jr. mas tenho horror a todo esse circo mulherzinha, como toda boa mulher-traveco. Em suma: gosto de sapatos, adoro maquiagem e tenho carinho por várias peças de roupa, mas jamais me renderei àquela balela de que mulher tem que ser gostosa pra valer alguma coisa. Se há alguma coisa que aprendi em 28 anos não sendo uma modelo internacional, é que tem coisas que beleza não compra.

Dito isso, preciso expressar minha euforia total depois que fui, hoje cedo, à liquidação da Louloux. A Luísa tinha dado a dica e quando vi os modelos no site fiquei em chamas para conferir. Sapatinhos lindos por 80 reais e botas incríveis por um precinho um pouco menos doce, mas ainda assim, longe do salgado. Infelizmente, tudo o que meus parcos meios me proporcionaram foram esses dois modelos que ilustram o post. E mesmo assim tive que me encalacrar pra pagar. Mas o local estava recheado de botas e sapatos fantásticos que não pude trazer comigo para amar e respeitar até que a morte nos separe. Deus sabe que eu teria deixado a mãe lá, se a minha tivesse algum valor de mercado.

louloux_bota