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Primeiras impressões de leitura: Richard Yates (Tao Lin)

outubro 3, 2010
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Uma coisa é certa: essa capa é muito boa!

Richard Yates, segundo romance de Tao Lin (de quem eu não lera nada anteriormente), foi uma leitura em tempo recorde. Tao Lin é um autor da assim chamada geração de autores “da Internet” (que é um rótulo meio furado, mas no Brasil parece integrar mais ou menos a galera do COL, pelo pouco que vejo na mídia). Sendo assim, seria de esperar um livro curto e cheio de referências pop, porque essas são, de um jeito covardemente generizante, características que figuram na nossa matriz de expectativas em relação a esses escritores. Por conta desses preconceitos, a voracidade da minha leitura teve menos a ver com a qualidade do que com minha vontade de achar algo pra não gostar.

E os elementos que me irritam, de fato, estavam todos ali. Referências a lugares, referências a pessoas, a canções, a marcas, etc., que servem para despertar no leitor um sentimento de “eu pertenço, eu entendo a piada”, mas estranhamente isso não me incomodou, talvez porque as referências servissem não para tornar atual uma coleção de clichês atemporais (como é o caso de tantos e tantos adeptos da temível literatura pop*), mas principalmente porque Richard Yates é realmente uma história cravada em um ponto no espaço e no tempo. Há alguns anos, tive uma discussão com @xerxenesky sobre Juno, e não consegui explicar porquê eu tinha gostado do filme. Agora vejo que era isso; há ficção sobre pessoas e há ficção sobre pessoas no tempo. As regras podem ser mais flexíveis. O mesmo princípio justifica porque, depois de 25 anos de apatia, transgressão e cinismo em relação à moda e sua superficialidade, passei a entender que certas coisas têm valor histórico. Olha a segunda onda do feminismo, por exemplo; olha o fascismo. Coisas que eram essencialmente desprezíveis sob muitos aspectos, mas que são inevitáveis de um ponto de vista histórico. All you need is love. E um tanto de senso crítico.

(dá o pulinho pra ler o resto, tá?)

A história fala de dois amigos-amantes que se envolvem pelo chat do Gmail e acabam presos em um ciclo de culpa e co-dependência. É com extrema naturalidade que questões “graves” como estupro, distúrbio alimentar e suicídio arranham a superfície da narrativa. É com ironia arrogante que se revela o retrato de uma geração que se condenou a viver fora do tempo, tomando para si a sina de peter-pans capitalistas. Me incomodava, já na metade, que o único conflito fosse a dificuldade de comunicação entre os dois personagens (Haley Joel Osment, escritor e bibliotecário, presumível alter-ego ficcional do autor e Dakota Fenning, garota obesa de 16 anos). Mas ok, isso é uma coisa totalmente Richard Yates, esteticamente faz sentido, mesmo.

Outro fator que influenciou a velocidade da minha leitura pode ter sido o fato de que o livro é realmente fácil de ler — até porque tem um vocabulário bem limitado (comercialmente, imagino que isso seja um “bônus”).  A obsessão de Tao Lin por síntese fica bem evidente na repetição de frases e expressões, e não consigo decidir se eu acho isso bom ou repulsivo. O romance inteiro tem 55.500 palavras (eu adoraria ver em um gráfico de wordle os padrões de repetição, provavelmente ia ter um grande Gmail no meio, no meio de coisas como severely deppressed, kill myself, smoothie, obese e lying). De modo geral, eu gosto de jogos de repetição (Stewie: Again! Again! I luuurv repetition!), mas nesse livro eles me incomodaram. Por outro lado, também não acho que haja qualquer associação a priori entre variedade vocabular e qualidade estética de uma obra de ficção; longe de mim. O caso é que Tao Lin escreve bem, é como ouvir um cara que podia ser o Jimi Hendrix tocando uma guitarra de uma corda só. Agora, se um romance que trata da angústia de uma geração estiver realmente sendo consumido por essa geração, então isso quereria dizer ainda há tempo para reverter a tomada dos espaços catárticos por mídias mais dinâmicas que a leitura. Mas isso é outro assunto, para outro momento.

Em suma, eis minhas primeiras impressões: se Richard Yates virasse um filme, seria chatíssimo; como leitura, é extremamente irritante. Mas como arte, devo admitir que é uma obra bem realizada e relevante — talvez até necessária. A infelicidade difusa e trivial de um Tao Lin pode ser ser a única arma ainda capaz de salvar a geração Twilight de uma vida inteira de infelicidade celibatária.

* Ouvi algumas vezes essa expressão, e nunca entendi o que era; mas tudo o que me mostraram era meio que uma merda, então estou reproduzindo como rótulo pejorativo. Se alguém tiver uma definição precisa do termo, aceito. Mas estou usando como semi-pejorativo, tendo como exemplos coisas tipo High Fidelity do Nick Hornby (blé) e Fight Club do Chuck Palahniuk (ié)
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2 Comentários leave one →
  1. novembro 8, 2010 4:32 am

    Gostando ou não do Chuck, o correto é PalaHniuk.

    • novembro 16, 2010 4:55 am

      Obrigada, Pedro. Já arrumei. Gosto dele sim, li Fight Club em 3 horas de pura diversão enquanto procrastinava um trabalho de faculdade anos atrás. Acho que ele tem um trabalho bem cinematográfico: os parágrafos verticais, a franja recuada na página, é como uma queda, mesmo. Acho bom, porque ele executa muito bem. Acho que é a mesma coisa com o Tao Lin. Funciona com ele, mas temo pelo que os copiadores hão de gerar.

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