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2 livros de auto-ajuda em 2 dias*

abril 22, 2007

Ah, os livros de auto-ajuda. Esses fenômenos de vendas que enriquecem tanto o bolso de seus autores quanto o repertório de xingamentos dos acadêmicos. Será verdade que são como lavagem para o cérebro (lavagem de porco, não aquela que faz ficar limpinho, embora não fosse uma má idéia lançar um livro que funcionasse como limpeza cerebral)? Ou será tudo intriga dos escritores “sérios” que ninguém lê? Em reportagem exclusiva, a intrépida Norma Propp penetrou o submundo da leitura dinâmica e voltou para contar a história.

Depois de muito riso, impáfia, e sublime sensação de superioridade, eis algumas verdades genéricas da literatura de auto-ajuda:

a) se leva mais de 3 horas para ler, ninguém vai comprar
b) tudo o que seus pais ensinaram estava errado, mas tudo o que os pais do autor ensinaram estava certo (exceto o pai pobre, que não sabia de nada)
c) a obviedade nunca é óbvia o suficiente, até que tenha sido totalmente dissecada, explicada, e revisada

Bom…chega de onanismo, e vamos à ficha-de-leitura dos petardos.

10 de Novembro

Venda seu peixe! (J.A. Minarelli)

A ambição: Ensinar as melhores práticas de vendas de serviços a profissionais autônomos e desempregados.

A metáfora: (surprise, surprise!) Vendedores de peixe em uma feira; as diferenças entre peixe podre e peixe fresco; alguns clientes compram salmão, outros compram sardinha. Destaque para os trocadilhos recorrentes “se o serviço que você presta realmente presta”, e para a pérola “negócio é a negação do ócio”. Ah, mas que peraltinha esse seu Minarelli…

O resultado: Paupérrimo. O livro é um compêndio de obviedades que, como toda obra de auto-ajuda que se preze, compila o “best of common sense” sobre o assunto. Não bastando a obviedade dos conceitos (e.g. “Só compra quem pode”, “só compra quem precisa”, etc.), ainda são explorados extensivamente em capítulos cheios de piadinhas espirituosas. Se você é dessas pessoas sem bom-senso que não receberam educação em casa, ou nasceram de uma chocadeira, Venda seu peixe lhe trará insights valiosíssimos para a vida inteira. Caso contrário, acredite em mim, os peixeiros da feira tem mais a lhe ensinar sobre o mercado de serviços do que o autor do livro.

16 de Novembro

Quem mexeu no meu queijo? (Spencer Johnson, M.D.)

A ambição: Resolver todo e qualquer problema que você possa enfrentar durante toda a vida, reduzindo drasticamente a complexidade do universo e das emoções humanas.

A metáfora: Dois ratos em dois gnomos em um labirinto em busca de queijo para serem felizes. Os ratos são mais espertos que os gnomos, logo, mais felizes, e mais gordos. Os gnomos não admitem que possam ser mais burros que os ratos, então um deles se revolta e parte para o desconhecido, enquanto o outro continua se achando o maioral e presumivelmente morre de fome. Meu deus, isso é realmente muito freak!

O resultado: Este é um clássico, realmente. Qualquer semi-analfabeto pode ler o livro e sair com a sensação de que entendeu. Principalmente porque as últimas 25 páginas são a explicação da metáfora óbvia que o autor desenvolve à EXAUSTÃO no decorrer do livro. Além disso, para os *aham* como dizer… challenged readers, o livro traz um resumo geral de sua *aham* “filosofia”(abaixo). No fim das contas, é uma leitura meio revoltante, mas tem seu lado engraçado. Só em pensar que grandes empresas fazem grupos de discussão do livro para resolver seus problemas estratégicos, já fico sonhando com um episódio do The Office dedicado ao tema. Imagina só as frases que devem sair em reuniões desse tipo…

Outra coisa interessante é a informação contraditória sobre qual, afinal de contas é o método de gerenciamento mais popular do mundo, embora fique claro que o Dr. Spencer é um gênio do marketing. Na capa do livro, uma elipse estilo “selinho” anuncia: “O método de gerenciamento mais popular do mundo”. Na pág 103 do livro, porém, consta que Spencer Johnson é “o criador e co-autor de O gerente-minutoTM, (…) [que] se tornou o método de gerenciamento mais popular do mundo.” Só posso concluir que todos os livros do Dr. Johnson ensinam o mesmo método de gerenciamento, e ele usa títulos diferentes para se aproveitar das dificuldades cognitivas de seu público leitor.

Em suma, a felicidade é uma bisnaga cheia de cheddar. Mas cuidado com suas artérias.

16.11.2006

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