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Birth (2004, Jonathan Glazer)*

abril 22, 2007

Acho que está na hora de falar deste filme, que eu não me canso de assistir e nunca tenho com quem discutir. O título em português é Reencarnação, mas me parece que Nascimento seria bem mais impactante, e também ajudaria as pessoas a entenderem o filme. Das minhas relações, todos que assistiram o filme e não falam inglês não entenderam bem, e o título é uma das principais perdas. Reencarnação é um título óbvio, e não revela nada extra sobre o filme. Já o título original, em português Nascimento, possibilita enxergar um novo, e riquíssimo, conjunto de símbolos.

De certa forma, o filme implica em uma questão crucial: não existe nascimento sem morte. Este princípio, uma obviedade na mão de muitos, se tornou, nas mãos de Jonathan Glazer, uma história fascinante, que além de bem fotografada, deixa na interpretação dos atores pequenas grandes pistas para a construção de um enredo cheio de túneis subterrâneos.

[aqui começam os spoilers, assista o filme antes de ler]

I. A água como veículo da vida

A presença de água sinaliza o “nascimento”, são as cenas mais densas emocionalmente (à exceção da cena na ópera, em que não há água) , e primordialmente visuais. O veículo da vida, porém, não age como purificador, e sim como ambiente “amortecedor”. A água não é límpida ou cristalina, mas morna e turva, permeada pela dor. Nascimento do bebê (emerge), cena da banheira, renúncia (submerge), tentativa de suicídio.

2. Realismo x Romantismo

Birth, em termos narrativos experimenta uma fusão de conceitos. Um conceito típico da concepção de mundo romântica (o amor eterno que ultrapassa as barreiras da morte e não vê barreiras) é arremessado em um universo realista, frio e repressor, que é o inverno novaiorquino, a família burguesa e anal-retentiva, as relações sociais e afetivas do novaiorquino woodyalleniano. O realismo está em encontrar modos de viabilizar este encontro. O cunhado diz ao menino Sean as seguintes palavras:

“You know…if you were my brother-in-law,you’d say it was impossible for you to
be sitting right here in front of me. You didn’t believe in life after death. You
believed that only matter survives and that the mind, soul, spirit…whatever you
want to call it… disappears forever.”

Por um lado, Sean não acredita em reencarnação, por outro ele é confrontado com suas memórias. O filme deliberadamente adota uma posição de ambiguidade, mas na verdade são dois filmes absolutamente distintos, um para realistas, outro para românticos. Mas ao mesmo tempo que há o duplo, há também o individual. Birth é uma história de amor além da vida, sim, mas contada de forma suficientemente realista a ponto de revelar o que parece impossível no cinema hoje em dia: a face negra do amor: o egoísmo. Isto é assunto para o terceiro e último tópico (estou com sono, são quatro da manhã, eu juro que gostaria de ir adiante, mas estou sentindo a coisa ficar abstrata demais)

3. Don Juan

Don Juan é a desgraça das mulheres. Por um lado, ele é o amante na extensão máxima da palavra, o melhor amante que elas jamais conhecerão. Por outro lado é equivalente a uma sentença de morte para uma moça “direita”: infiel, individualista e inesquecível. Este aspecto do Sean morto fica claro na atitude da amante. Não fosse a reação de Clara, a fragilização da personagem Anna diante o reaparecimento do marido seria um caso isolado. Este não é um homem comum, como Joseph, o anti-herói condenado a “juntar os pedaços” de uma vida que foi destruída. Sean representa este ideal de homem (o “grande amor”) em sua faceta dúbia e sedutora: a impossibilidade de conviver com o “similar paraguaio” do amante perfeito faz com que as duas mulheres de sua vida estejam condenadas à infelicidade eterna, aprisionadas sob seu encanto. O pequeno Sean, no entanto, parece genuinamente feliz na última cena. É razoavelmente seguro deduzir que será feliz, apesar da penitência. Esta penitência não é, para ele, tão enfadonha, uma vez que agora ele aceita e compreende sua natureza, e, até certo ponto, o poder incomum que possui(u) sobre as mulheres.

Eu poderia ficar horas falando de como é Kubrickiano, como é Hitchkockiano, como é majestoso e cheio de coisinhas que vale a pena comentar. Mas já é tarde e fico por aqui.

Até a próxima, garotada.

^.^

16.08.2006

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