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tango para um

julho 21, 2007

o mal da civilização é a negação do desejo. desde que o mundo é mundo, a humanidade vem se utilizando de métodos mais e mais elaborados. o objetivo da negação é uma questão de coragem, basicamente. enganando o outro, cria-se um universo amistoso, caso ele creia no que dizemos.

é impressionante como os depoimentos espontâneos falam por si só. ao responder perguntas, ou interagir em um grupo de falantes (ex: mesa de bar), as pessoas conservam ainda o comando mecânico. todos nós temos memorizado, em cada célula de cada tecido de cada órgão de nosso corpo, o complexo cerimonial da convivência. assim, é fácil pronunciar sentençãs sem sentido, como um bomdia, tudo bem? tudo bem.

não é um bom dia. não está tudo bem. são as marcas verbais de um pária. não fosse o cerimonial e os acordos p2p, por assim dizer, nosso discurso seria AINDA mais dissociativo e autocentrado. como os depoimentos espontâneos.

um bom exemplo é o caso do rapaz que se sente intimamente ameaçado, nos brios de sua masculinidade, e decide esclarecer a questão para a namorada (que, na maioria dos casos, não é autora de acusações contra a masculinidade do coitado mas, se ela depuser contra a macheza do rapaz, convém acreditar).

telma, eu não sou gay.

ora, caubí. por acaso eu perguntei “você é gay?”, porque realmente não me recordo. caubí diz mais do que deseja sobre si. ele sofre e se tortura na negação do desejo. daqui a trinta anos ele morre de câncer de próstata e vai ter o que queria. tarde demais, e pelas mãos de algum golfista amador sexagenário.

não, eu não acho realmente que as pessoas devessem dizer tudo o que pensam. por outro lado também não sei se falar o oposto do que se pensa é necessário. além disso, gostaria de deixar claro que o fato de eu declarar que não acho que as pessoas devessem dizer o que pensam não é uma negação de um desejo, e sim a inexistência dele. perdão pela serpente embriagada de palavras. já não é hora de falar.

é de suma importância que se mantenha a cautela. mas sem ela, o caldo engrossa e a coisa muda de figura. ah, que mentira deliciosa achar que somos todos iguais.

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