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MATRIMÔNIO

janeiro 13, 2008

MATRIMÔNIO

Gregory Corso (traduzido para o português por M.D. Bandarra, 1998)

(publicado originalmente no site traição)

Devo casar-me? Devo ser bom?
Assustar a moça da porta ao lado com meu terno de veludo e capote faustoso?
Não levá-la ao cinema mas aos cemitérios
contar tudo sobre banheiras de lobisomem e clarinetes bifurcados
então desejá-la e beijá-la e todas as preliminares
e ela indo tão longe e eu entendendo o porquê
não me zangando e dizendo Você deve sentir! É lindo sentir!
Ao invés tomá-la em meus braços recostar em uma velha lápide encurvada
e cortejá-la toda a noite as constelações no céu-

Quando ela me apresentar a seus pais
coluna alinhada, cabelo enfim penteado, estrangulado por uma gravata
devo sentar-me joelhos unidos em seu sofá de interrogatório
e não perguntar Onde é o banheiro?
Como sentir senão que eu sou, sempre pensando no sabão do Flash Gordon-
Ó que terrível deve ser para um jovem
sentado diante da família e a família a pensar
Nós nunca o vimos antes! Ele quer nossa Mary Lou!
Depois do chá e biscoitos feitos em casa eles perguntam Que você faz pra viver?

Devo dizer-lhes: Eles gostariam de mim, então?
Dizem Tudo bem, casem, nós estamos perdendo uma filha
mas estamos ganhando um filho-
E devo eu então perguntar Onde é o banheiro?
Ó Deus, e o casamento! Toda a família e amigos dela
e só um punhado dos meus, esfarrapados e barbudos
esperam a hora dos drinks e da comida
E o padre! me olhando como se eu me masturbasse
perguntando Você aceita esta mulher como sua legítima esposa?
E eu tremendo o que dizer digo Azeito!
Eu beijo a noiva todos aqueles homens chatos dando tapinhas em minhas costas
Ela é toda sua, garoto! Ha-ha-ha!
E nos seus olhos você poderia ver acontecendo uma obscena lua-de-mel-

Então todo aquele absurdo arroz e latas barulhentas e sapatos
Cataratas do Niágara! Hordas de nós! Maridos! Esposas! Flores! Chocolates!
Todos manando para hotéis confortáveis
Todos vão fazer a mesma coisa esta noite
O recepcionista indiferente sabendo o que ia acontecer
Os zumbis do lobby sabendo o que
O ascensorista sabendo
O piscante mensageiro sabendo
Todo mundo sabendo! Eu estaria quase inclinado a não fazer coisa alguma!
Passar a noite em claro! Olhar vidrado nos olhos do recepcionista do hotel!
Gritando: Eu nego a lua-de-mel! Eu nego a lua-de-mel!
correndo desabalado pra dentro daquelas suites quase culminares
berrando Barriga de rádio! Pá de gato!
Ó eu viveria eternamente no Niágara! em uma caverna escura debaixo das Cataratas
Sentado ali o Louco em lua-de-mel
formulando meios de destruir casamentos, um flagelo de bigamia
um santo do divórcio-

Mas eu devo casar-me Devo ser bom
Que bom seria voltar pra casa para ela
e sentar em frente à lareira e ela na cozinha
de avental, jovem e adorável querendo meu bebê
e tão feliz comigo ela queima o rosbife
e vem chorando e eu levanto da minha grande cadeira-do-papai
dizendo Dentes de natal! Cérebro radiante! Maçã surda!
Deus que marido eu daria! Sim! Devo casar-me!
Tanto a fazer! como esgueirar-me pela casa do Sr. Jones tarde da noite
e cobrir seus tacos de golfe com livros noruegueses de 1920
Como pendurar uma foto de Rimbaud no cortador de grama
como colar selos de Tannu Tuvu** por toda a cerca
como quando a Sra. Bondosa vier coletar para caridade
segurá-la e dizer Há sinais desfavoráveis no céu!
E quando o prefeito vier ganhar meu voto dizer a ele
Quando vocês vão fazer as pessoas pararem de matar baleias!
E quando vier o leiteiro deixar um bilhete para ele na garrafa
Pó de pinguim, me traga pó de pinguim, eu quero pó de pinguim-

Todavia se devo casar-me e for Connecticut e neve
e ela der à luz a uma criança e eu estiver insone, exausto,
noites em claro, cabeça inclinada contra uma janela quieta, o passado atrás de mim,

me encontrando, na mais comum das situações, um homem trêmulo
sapiente com responsabilidade não visco nos galhos nem sopa de moedas romanas-
Ó como seria isso!
Certamente eu o daria como chupeta um tacitus* de borracha
como chocalho um saco de discos de Bach quebrados
Pregar Della Francesca por todo seu berço
Bordar o alfabeto grego em seu babeiro
E construir seu chiqueirinho como um Parthenon sem teto

Não, eu duvido que desse um pai assim
nem rural nem neve nem janela quieta
e sim a quente fedida apertada cidade de Nova York
Seis lances de escada, baratas e ratos nas paredes
Uma gorda esposa Reichiana ganindo por sobre batatas Arrume um emprego!
E cinco pestinhas ranhentos apaixonados pelo Batman
E as vizinhas todas banguelas de cabelo espigado
como aquelas massas de megeras do século XVIII
todas querendo entrar e assistir TV
O senhorio quer seu aluguel
Mercearia Cruz Azul Gás e Cavaleiros Elétricos de Colombo
Impossível deitar e sonhar Neve telefônica, Estacionamento fantasma-
Não! Não devo casar-me Eu devo nunca casar-me!
Mas – imagine se eu fosse casado com uma mulher linda e sofisticada
alta e pálida vestindo um elegante vestido preto e longas luvas negras
Segurando uma piteira em uma mão e um cocktail na outra
e nós morássemos no alto de uma cobertura com uma imensa janela
da qual poderíamos ver toda Nova York e muito mais longe nos dias mais claros
Não, Não posso me imaginar casado com esta agradável prisão de sonho-
Ó mas e o amor? Esqueço do amor
não que eu seja incapaz do amor
é só que vejo o amor tão esquisito quanto usar sapatos-
Eu nunca quis casar-me com uma garota que fosse como minha mãe
E Ingrid Bergman sempre foi impossível
E há talvez uma garota agora mas ela já é casada
E eu não gosto de homens e-
mas tem que haver alguém!
Porque E se eu tiver 60 anos e não for casado
totalmente só em um cômodo mobiliado com manchas de mijo nas cuecas
e todo o resto do mundo estiver casado! Todo o universo estiver casado menos eu!

Ah, no entanto eu bem sei que se uma mulher fosse possível
como eu sou possível então o casamento seria possível-
Como ELA em sua solitária pompa estrangeira esperando seu amante egípcio
então eu espero – mal amado de 2000 anos e do banho da vida.

–Gregory Corso Notas da tradução

* Isso aí embaixo é um tacitus, antiga moeda romana, homenagem ao Imperador de mesmo nome, e completa a referência logo a seguir, “sopa de moedas romanas”. Estas alusões completam o clima e se cruzam em outras partes do poema como a dos “velhos discos de Bach”, e, mais acima, os “selos de Tannu Tuvu”.

** República de Tuva, Tannu Tuvu, ou ainda Tannu Tuva, é um paisinho ao sul da Sibéria, espremido entre a união soviética e a mongólia , famoso por seus selos, muitos com estampas de pássaros e outros animais. Os desenhos e motivos são tão cobiçados e cultuados pelos colecionadores que existe até uma sociedade de colecionadores de selos de Tannu Tuva, interessados devem entrar em contato com http://www.blarg.net/~brad/ttcs.htm . Abaixo, selos do do período de semi-independência de Tannu Tuva, dos anos vinte a trinta deste século. Interessados na história do país visitem http://www.blarg.net/~brad/ttcs-his.htm.

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