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(She) Is a bella

junho 28, 2008

Por doze longos anos, ouvi as pessoas me chamarem por um nome que não era o meu. ‘Isabela Rosselini’, sempre gostei do som sibilante e serpenteado que de suas bocas explodia, minha ficção particular. Não sou Isabela. Mas com o tempo esqueci desse detalhe. Não há nada pior no mundo do que se esquecer quem é. É claro, o ostracismo tem seus encantos, uma certa ilusão de liberdade. Mas esquecer significa, inevitavelmente, sentir o vazio. É como se aquela sensação de esquecer algo antes de sair (pode ser a carteira, o endereço do lugar para onde se vai, ou as chaves) invadisse todo o organismo, como um balão gigante, que se enche mais e mais com o sopro dos anos que passam, e no fundo você sabe que ele vai explodir e revelar essa memória até que não reste mais nada de confortável ou encantador, todo o esquecimento se vá e reste somente um estranho. Um estranho dentro do qual se está aprisionado.

Mas como eu dizia, durante anos atendi quando chamavam pela linda atriz de Veludo Azul, E agora, neste exato instante, enquanto caminho pelo calçadão abarrotado de corpos que se acotovelam em atropelo, posso jurar que ouvi alguém me chamar de Lúcia. Lúcia, um nome esquecido, uma mulher anônima. Houve um tempo em que Lúcia andou por aí, e chegou a frequentar convescotes e soirées, Lúcia, era assim que me chamavam, e eu atendia. Naquele tempo eu sequer sabia quem era Isabela Rosselini, embora seu rosto já me perseguisse em anúncios de cosméticos que eu era jovem demais para usar. A voz vem de trás, ‘Lúcia’, e sigo em frente, distraída, mas sinto que algo ainda reage, o som é a chave para um baú pesado e inútil, enterrado a sete palmos da superfície em um isolado vilarejo de pescadores, nos confins de um país distante dentro da memória. Antes que eu possa manobrar para despistar a voz e desaparecer na multidão, a verdadeira Lúcia responde, em uma voz estridente de entusiasmo, ‘Olha só, há quanto tempo’. Tudo isso num top de três segundos, menos talvez, e eu respiro fundo e volto a olhar para frente. A’verdadeira ´Lúcia veio me salvar. Em um conto de fadas, a princesa, a matriz do nome. Não sou eu a genuína, sinto a golfada de ar desacelerar a palpitação do pavor. E em alguns passos já sinto um sorriso, ao pensar no que pensaria a genuína Isabela, se soubesse de uma história assim.

One Comment leave one →
  1. julho 14, 2008 5:27 pm

    é que a beleza espreita fugitiva, de resto é pânico e cinza.

    Lindeza!

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