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Femichismo

novembro 7, 2009

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Talvez por inveja do pênis, talvez pelo horror às neuroses da geração anterior ou por uma forte afeição ao sutiã e aos seus benefícios, durante quase toda a adolescência me autoproclamei machista. Continuo sem ter quase nada em comum com o estereótipo mulherzinha, mas venho me tornando progressivamente mais feminina, e principalmente, menos machista.

É claro que essa mudança de posicionamento tem tudo a ver com as experiências que eu tive ao longo dos anos, como por exemplo perceber que certas coisas assumem valores e cargas diferentes com base no gênero (uma piada pode ou não ser engraçada, um comentário pode ou não ser informado, etc.), e talvez a coisa mais gritante foi me dar conta de que a função social da mulher é, em quase todos os círculos sociais mistos (e alguns não-mistos), a de ser bela, ou ao menos comível.

Olhando retroativamente para as idéias (com acento! com acento!) que eu tinha sobre gênero aos 18 anos, percebo o quão pós-feminista eu me tornei. E, sim, caso você esteja se perguntando, o prefixo pós se faz necessário. E como.

Sendo assim, achei que seria interessante desbancar (ou ao menos re-discutir), 10 anos depois, os três principais argumentos que eu usava para me autoproclamar machista aos 18.

1. a maioria das mulheres é burra e superficial. as mulheres fazem a manutenção do patriarcalismo e se aproveitam dele para não evoluir, para continuar se objetificando.

Ainda me irrito com mulheres burras e superficiais, e de certa forma responsabilizo elas pela perpetuação de alguns ranços de gênero. Acho ainda que o problema da objetificação é um problema de responsabilidade compartilhada, mas a verdade é que objetificação, pós-revolução sexual, não é um assunto simples. Se uma mulher escolhe se objetificar, fica difícil dizer que ela seja vítima de um establishment perverso. Mas acho que meu principal motivo para acreditar na falácia era, na verdade, o fato de achar que mulher inteligente era um estereótipo. Hoje em dia conheço mulheres extremamente inteligentes que fazem a mão toda semana, adoram fazer chapinha, colecionam bolsas, perfumes e sapatos e querem mais é ser objetificadas, se vistas assim por um ponto de vista bem binário. O fato de elas gostarem de todas essas coisas não as torna menos inteligentes. Algumas mulheres simplesmente gostam de “pensar feito Churchill e se vestir feito Madonna”.

2. as mulheres são tão competitivas que não é possível confiar nelas. logo, os homens são melhores, como amigos.

É bem verdade que a maioria numérica de meus amigos é composta por homens, mas qualitativamente, toda mulher precisa de uma melhor amiga. Vou mais longe, inclusive. Mulheres que não têm pelo menos uma amiga do mesmo sexo muito provavelmente não são de confiança. Os exemplos estão aí, e por mais que eu e minhas amigas não conversemos sobre sapatos e meninos (pelo menos não como tópicos principais), é inestimável a sensação de ter uma melhor amiga pra conversar nos momentos alegres e nas horas sombrias. Não estou, com essa declaração, tentando diminuir a importância de meus amigos homens, mas o fato é que a maioria deles me trata como um semi-homem, uma amiga/amigo, e isso é, de certa forma, machista. Porque meus amigos incorrem no mesmo erro sobre o qual discorri acima: o de considerar que se uma mulher é inteligente, ela é anormal e deve, portanto, ser tratada como destacada do gênero (o que é, ao mesmo tempo, lisongeiro e bizarro).

3. a revolução sexual foi um atraso na vida das mulheres heterosexuais.

Essa era a mais idiota das minhas ideias machistas, sem dúvida. A questão problemática aqui é não apenas uma homofobia velada (com a qual foi mais fácil lidar depois de assumir), mas também uma negação do patriarcalismo, negação essa que foi (sem dúvida) produto de um ambiente familiar razoavelmente protegido durante os anos de formação. Entender e sentir na pele as formas de marginalização das mulheres me fez valorizar muito mais os sacrifícios das gerações anteriores. Ou, como disse de forma brilhante uma amiga, certa feita, agradecer “àquelas mulheres que deram suas vidas para que nós, hoje pudéssemos fazer o que bem entendêssemos com nossas bucetas”.

Bem, por ora era isso.

10 Comentários leave one →
  1. novembro 7, 2009 8:39 pm

    No Brasil rola uma GRANDE confusão entre pós-feminismo e opressão velada. É bem difícil perceber a diferença…

  2. novembro 7, 2009 9:29 pm

    cada vez se torna mais relevante falar sobre os ofengios ou elosultos, os elogios que trazem uma ofensa consigo. hahahah.
    mas, mais que isso, eu ainda acredito que muita gente é vítima de um establishment perverso, sim, ie, brasil segue sendo brasil fora dos pequenos núcleos, agora imagine em outros lugares, outros contextos, etc
    e, por fim, “àquelas mulheres que deram suas vidas para que nós, hoje pudéssemos fazer o que bem entendêssemos com nossas VIDAS”.
    que nos reduzir ao orgão genital e reduzir nossas vidas e subjetividades a pratica do coito, é um pouco machista, uma coisa meio, sex and the city: sou uma mulher que se sustenta e pensa. pensa em como comprar sapatos e ser palhaça de homem é o que me faz mulher.
    :*

  3. novembro 7, 2009 9:33 pm

    alias, sex and the city é meio travestismo em crise: ser mulher é sempre externo. nunca está em si. vestidinho, sapatos e um namorado rico e popular.
    não admira que a Sarah Jessica Parker tenha sido tão iconica dessa xente
    hahahaha

  4. novembro 7, 2009 9:49 pm

    ótimo texto, parabéns🙂

  5. novembro 7, 2009 11:00 pm

    é, sex and the city é o epitáfio da feminilidade. mas quando falo de objetificação por opção não estou me referindo às kelly keys, e sim às mulheres suficientemente informadas que optam por participar (e perpetuar) do jogo. não espanta que não sejam numerosas, embora espante que existam.

    os elosultos de amigos homens, sempre, como disseste: “tu é tão inteligente que nem parece mulher”. leia-se nas entrelinhas “sou teu amigo, mas jamais serei amigo do teu gênero.”

    es fueda. but we can do it, riveters!

  6. novembro 7, 2009 11:30 pm

    portmanteau definitivo: elofensa

  7. novembro 7, 2009 11:49 pm

  8. novembro 7, 2009 11:56 pm

    como podemos observar no vídeo acima, o que tá faltando é ENXADA e SEMENTE. É ENXADA E SEMENTE!

  9. novembro 8, 2009 10:37 pm

    ENXADA E SEMENTE!
    [elofensa=definitivo]

  10. Camila Silva permalink
    outubro 6, 2011 11:06 pm

    Muito bem escrito seu texto, parabéns! A questão de objetificação feminina é realmente complicada, ainda mais quando exposta pela mídia, porque massifica tudo e a sociedade tem essa mania de generalizar e cultivar preconceitos. Grande parte do preconceito contra a mulher e a desvalorização vêm por causa das representantes que temos e que não são as melhores. O fato de uma primeira presidenTA (não tem porque não trocar o gênero) mulher ser eleita pode ser sim o início para uma grande mudança, e eu espero sinceramente que seja!

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