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TEDxSP: uma praça de alimentação da mente

novembro 19, 2009
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Definir o que aconteceu no dia 14 de novembro de 2009 no TEDxSP é como tentar definir aquelas coisas invisíveis e imateriais que preenchem o espaço que nos separa. Sempre fui uma aficionada pelas TED Talks, e quando soube que haveria um TEDx no Brasil fiquei em chamas de euforia, e me inscrevi já no primeiro dia.

Com o tema “O que o Brasil tem a oferecer ao mundo agora?”, o TED tupiniquim reuniu 30 dos pensadores e realizadores mais interessantes do país (e um de fora) para debater sobre temas tão diversos quanto apaixonantes. Curioso foi que, embora os palestrantes tivessem formações e histórias totalmente diferentes entre si, houve diversos temas recorrentes: arte, oportunidade, amor, sustentabilidade, tecnologia, criatividade, ambientalismo y otras cositas más.

Segue, abaixo, um resumão das coisas que foram mais impactantes pra mim nesse samba-do-crioulo-doido das boas ideias.

Antônio Veiga
Evoluir é transformar e transformar-se

Partindo de uma metáfora análoga à expansão de matéria contraída que deu origem ao universo, o psicólogo gaúcho Antônio Veiga estabeleceu uma perspectiva material da emoção, ao explicar que “todo átomo é pulsante”. Daí em diante, Veiga construiu uma das falas mais corajosas do dia, que começou abordando as relações humanas sob a perspectiva da terapia de revivência transpessoal (TRT), estabelecendo a verdade inegável de que só conseguimos amar a nós mesmos, mas precisamos amar a nós mesmos através do outro. Destemidamente, Veiga propôs uma definição circunferencial de amor e a negação da religião em benefício da liberdade e da espiritualidade.

Ponto alto: “Somos infelizes porque fomos ensinados a ‘amar errado’”.

Augusto de Franco
A cooperação é um atributo do modo como os seres humanos se organizam

A apresentação de Augusto de Franco foi, certamente, uma das mais faladas e “ovobabadas”, merecidamente. A partir de sua experiência com esforços de induzir desenvolvimento local, esse tecelão de redes sociais deu a todos os presentes um fantástico panorama teórico e crítico sobre estrutura e natureza das redes, capital social como fator sistêmico do desenvolvimento e identidades sociais que só se revelam através dessas tramas invisíveis que ligam os membros de uma comunidade ou sociedade.

Ponto alto: a distraída menção ao “espaço/tempo dos fluxos”.❤

Casey Caplowe
Nosso objetivo é gerar o máximo de bem e o máximo de lucro possíveis

O que eu gosto na revista Good, de Casey Caplowe, é a forma como sua proposta editorial dissocia o capitalismo do mal, e propõe um modelo de sustentabilidade viável dentro do nosso sistema político. A idéia de que iniciativas que geram o bem (para todas as partes) podem ser lucrativas é potencialmente revolucionária, e é um tema cada vez mais em pauta (vide o filme The New Recruits). A revista ainda trabalha dentro de uma tradição de design pós-moderno com infográficos nos moldes da pioneira revista americana Spy. Casey propõe, com base no Awesome Manifesto de Umair Haque, que a inovação não será o suficiente no futuro, porque a inovação se baseia em algo já obsoleto, enquanto algo incrível independe de contexto, e para isso a criatividade é essencial.

Ponto alto: o infográfico demonstrando a idéia de “good” como o ponto de intersecção entre você e o mundo, desbancando a idéia de altruísmo abnegado.

Guti Fraga

Fui um pobre que teve todas as oportunidades na vida

Guti Fraga contou, em uma palestra cheia de entusiasmo, que levou muita gente (inclusive eu) às lágrimas, sua história de vida com o projeto Nós do Morro, “surfando durante 23 anos numa onda sem volta”, combatendo o estereótipo da favela e construindo um grupo de teatro experimental, criando oportunidades e dividindo sua vida com jovens, através da arte (uma experiência que ele classifica como “sem fim”) e de uma filosofia de vida com base no coletivo. O vídeo tem a palestra inteira: vale cada segundo.

Ponto alto: “A malandragem é universal”

João Paulo Cavalcanti
O Brasil pode se tornar a “Suíça das ideias”

A apresentação do excelentíssimo Sr. pai da Dora foi de um ufanismo refrescante e poético. Mobilizando conceitos tão diversos quanto o poder do mito, manifest destiny e a “nova auto-estima” da juventude brasileira, João propôs que o Brasil – a mais jovem das nações do BRIC – precisa encontrar seu sonho nacional para verdadeiramente transformar-se através da diversidade de ideias.

Ponto alto: “A nação que não possui um sonho não é nação” (tuitando Dostoievski)

Luiz Algarra
Ser livre para amar através da percepção do outro

Introduzindo o interessantíssimo conceito de biologia cultural, Algarra começou com um “solilóquio reflexivo” sobre a forma como tudo é determinado por nossa estrutura biológica cultural na relação antroposfera x biosfera. Respondendo à pergunta tema do evento, ele propôs que o que o Brasil tem a oferecer ao mundo é um novo olhar, o “brasileirar” — uma matriz multirelacional de entrelaçamentos consensuais no fluir da amorosidade e da abundância.

Ponto alto: “O Brasil possui em sua epigênese uma mestiçagem viva; ainda estamos nos apaixonando uns pelos outros.”

Osvaldo Stella
Foi no coração da selva que eu entendi que não sabia nada

Em uma fala espontânea e entusiasmante, Osvaldo Stella (fundador da ONG Iniciativa Verde) contou sua história, desde o tempo em que lia Crumb nas aulas de cálculo no curso de engenharia até o insight diante da miséria, no interior da floresta amazônica. O lance principal é perceber como o conhecimento te dá as ferramentas para atingir o que se quer.

Ponto alto: “peço desculpas ao pessoal que fez minha apresentação, porque eu não vou usar”.

Paulo Saldiva
O homem como ponto central da questão ambiental

O patologista Paulo Saldiva introduziu uma das ideias mais provocantes do dia, o conceito de racismo ambiental: de dentro da luxuosa caminhonete 4×4, os níveis de poluição não são os mesmos de quem está parado durante 20 minutos no ponto de ônibus. Em outras palavras: quem paga a conta da poluição é quem menos contribui para ela. Com muitas metáforas médicas e uma honestidade desconcertante, Saldiva expõe a hipocrisia da política “verde” das corporações e revela a triste verdade: estamos mais preocupados com o panda do que com nossos semelhantes do lado de lá do vidro do carro.

Ponto alto: os comentários bem humorados sobre a política ambiental das empresas petrolíferas, que “fazem chapinha no mico-leão dourado”.

Roberta Faria
Se você construir, eles virão

Roberta Faria contou como obteve sucesso com um modelo multiplicador na revista Sorria, feita para arrecadar fundos para o hospital do câncer. Em uma palestra altamente motivadora e inspirada, a jornalista revelou os vícios do mercado editorial e mostrou que através da inovação e da criatividade é possível atingir o que parece inatingível.

Ronaldo Lemos
Belém do Pará é a cidade do Brasil com o maior número de máquinas de raio laser por habitante

Ronaldo Lemos deu uma apresentação extraordinária sobre a apropriação da tecnologia por parte das periferias globais, partindo da revolução das LAN houses (O Brasil tem 2 mil salas de cinema e 90 mil LAN houses – só a favela da Rocinha conta com mais de 150). Um dos exemplos mais interessantes do impacto econômico e social dessa apropriação é a indústria do Tecnobrega no Pará, que lança 400 CDs e 100 DVDs por ano, com um acordo de distribuição direto com os camelôs. Ronaldo mostrou exemplos similares em periferias do mundo inteiro, e falou também sobre o impacto que a tecnologia tem sobre a democracia, chamando atenção para o Marco Civil da Internet, que pode vir a ser a primeira lei colaborativa do mundo.

Ponto alto: quando Chris Anderson, da Wired, veio ao Brasil, sua única exigência foi encontrar-se com Gabi Amarantos.

Silvio Meira
O mundo em modo β para sempre

Infelizmente tive que ir ao banheiro e perdi o início da empolgante fala do Silvio Meira, do C.E.S.A.R.. Quando retornei, tive que assistir pelo monitor, e lamentei profundamente não poder entrar na sala (devido à entrada de luz, só era possível entrar no auditório no intervalo entre palestras). Silvio falou de tecnologia de uma forma relevante para o modo como pensamos educação (propondo o conceito de just in time ao invés do atual modelo just in case), sustentabilidade e até mesmo de evolução.

Ponto alto: “Não somos especiais.”

Fernando Barreto
O que eles estão fazendo com nossos desejos?

Fernando Barreto apresentou a revolucionária proposta do site Vote na Web — lançado por ocasião do TED e do aniversário das primeiras eleições diretas no Brasil (15/11). Nele, eleitores e futuros eleitores podem, através de uma interface simples e intuitiva, ter acesso aos projetos que estão sendo votados pela câmara e pelo senado e não apenas monitorar a discrepância entre o desejo dos eleitores e as ações dos parlamentares, mas também analisar os votos dos políticos, ler e comentar projetos de lei, e descobrir quais os políticos com quem têm maior afinidade. Iniciativa absolutamente sensacional.

Ponto alto: “É asqueroso ter que ir atrás dessas informações.”

Fernanda Viégas
Dados são apenas números

Em uma palestra que me lembrou muito as falas de Hans Rosling no TED global, a brilhante designer de informação Fernanda Viégas apresentou o projeto Many Eyes, desenvolvido em parceria com a IBM. Partindo da ideia de que estaríamos à beira de uma revolução, e que essa revolução será construída com dados, ela criou uma ferramenta capaz de tornar esses dados visualizáveis e interpretáveis por qualquer um. E não se trata de um conjunto estático: todo mundo pode usar suas tabelas e até mesmo arquivos de texto para visualizá-los de modo intuitivo e entender melhor o tecido dos números e palavras com que poderemos construir nossa revolução de informação.

Ponto alto: A demonstração da ferramenta com resumos de novela: hilariante.

Houve muitos outros palestrantes e coisas legais, isso sem falar na riqueza humana da plateia, que durante os intervalos roubava a cena. Mas esses foram, para mim, os momentos mais impactantes de forma direta. Assim que os vídeos estiverem no ar, na íntegra, colocarei link para todos.

Para encerrar esse longuíssimo post, queria agradecer toda a equipe que idealizou e organizou o TEDxSP, e todo mundo que estava lá pra compartilhar esse momento comigo.

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