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Ars Brevis Vita Longa

maio 23, 2010

Então, no fim do mês passado eu fui assistir o último trabalho do João de Ricardo (JdR), Homem que não vive da glória do passado (HQNVDGDP), no Teatro de Câmara. Fazendo já de início o disclaimer, João me é muito querido, e há muitos anos. Mas isso pouco tem a ver com o fato de que está é, para mim, a peça mais importante dos últimos (quantos? muitos!) anos a apresentar-se na amada Portinho. Ora, por quê? Interessante você perguntar…

O espetáculo é um redemoinho de estímulos, tudo ecoa em tudo, e esses ricochetes simbólicos acabam espirrando na cara do público. Em um presente pós-apocalíptico no qual todas as mulheres do planeta misteriosamente morrem, o protagonista é o homem, é o herói. Dentro de uma vida mediada por objetos eletrônicos e experiências sintéticas, o homem empertiga-se e compartilha sua história de sucessos. Dentro de uma vida cada vez menor, ele se retrai e desconstrói a partir dos cacos de si mesmo um novo outro, um outro ficcional, com quem é possível trocar algo de real. O orgânico da performance é contraposto com o rigor pós-industrial dos aparatos, a tenra carne do homem é mastigada pelos dentes plastificados da tecnologia. E é desse liquidificador de estímulos que o homem emerge, vitorioso e autônomo, despindo-se de organicidade e vestindo-se de dureza e dissabor. Mas vencedor, e é tudo o que importa. Junto com o homem, emerge também a plateia/participante, que pisa na rua sentindo ainda o escorrer da performance garganta abaixo.

Em termos menos alusivos e abstratos, HQVDGDP tem um clima de reality show (porque a quarta parede é sistematicamente erodida e o homem é um homem e ei-lo na nossa frente a ser humano) com pitadas de pastor televisivo e noticiário. Junte-se a isso uma obsessão autoimagética através da qual o mesmo homem é multiplicado, pasteurizado, reproduzido, mutilado, recriado: um mesmo homem que se reproduz para ter compania, um homem que transpõe a barreira do gênero e encontra no próprio desdobramento de si uma fenda redentora: a vagina absoluta. Esse homem aparece em telas, sua voz ecoa em gritos, ele se transforma e torna-se muitos e a visão desses múltiplos apenas torna mais evidente a solidão. Essa multiplicação opera, cenicamente, através de uma miríade de dispositivos de captura e reprodução: gravadores, microfones, auto-falantes, câmeras, telinhas, telonas… A ilusão é elevada ao status de realidade através do bombardeio de réplicas. E essa glamurização da ilusão está não só na cena mas também no discurso, que chega a lembrar o Tom Cruise ensandecido de Magnólia (para além da cena e do discurso, ela está inextricavelmente arraigada em nossas vidas, no bombardeio diário de mentiras e meias-verdades). Em termos visuais, o espetáculo tem muito de David Lynch em seus momentos mais Estrada Perdida, mas acima de tudo tem a assinatura plastificada e encharcada dos líquidos vis que está sempre presente na obra de JdR.

Mas tudo bem, até aí tudo ótimo. Só que aparentemente a peça foi atacada por todos os lados pela crítica teatral local, de jornais a blogs, e eu não pude deixar de me perguntar o porquê disso. Ora, como boa portoalegrina, não demorei a concluir que a má-recepção da obra era obra do seguro, aquele que morreu de velho. Se alguém assiste a HQNVDGDP e não enxerga as formas como o espetáculo é importante, então essa pessoa é muito provavelmente um velho. Não em idade, mas em velhice: em decrepitude. Parece que os críticos portoalegrenses vivem demais, têm saudade demais de como as coisas eram. É em homenagem a eles que nomeio este post, em homenagem aos que não enxergam a fagulha do novo porque estão já enterrados em vida por suas expectativas acerca do que a arte pode ou não fazer.

É claro que estamos eternamente condenados ao postulado da subjetividade absoluta e impenetrável, e a experiência artística, neste caso especificamente a esperiência dramática, é a via através da qual torna-se possível uma manutenção do vocabulário emocional de um tempo. E HQNVDGDP é um espetáculo fincado a um ponto no tempo. Embora pareça incomodar a crítica que esse ponto seja o presente, HQNVDGP não arreda pé.  Um homem do seu tempo, quando olha para si mesmo olha para todos os homens. O que a crítica portoalegrense precisava era atirar-se ao abismo das coisas que não estão nos manuais prescritivos; que, antes, fermentam simultaneamente nos cérebros e mídias dos verdadeiros artistas, e pulsam nas fibras de todos que verdadeiramente experimentam, em primeira mão, o sentimento de seu tempo. Mas na hora de dar o salto fruitivo na garganta do abismo, a crítica portoalegrense recusa-se a largar a corda. Aparentemente, está condenada a um ideal de exclusividade e finesse inescapavelmente ilusório e provinciano, atida a uma impenetrável rigidez formal, que a escusa da experiência real. Digo isso porque entre os elementos mais essenciais da obra de JdR estão a impalpabilidade dos limites, a petulância provocativa das artes performáticas e um inescapável senso de grandiloquência que é ao mesmo tempo aberta e altamente específica em relação a lugares, tempos e conflitos políticos.

JdR coloca Porto Alegre no mapa do teatro inteligente e vivo, que estava em Sófocles e estava em Artaud mas que sobretudo está no homem e no tempo. O teatro de JdR é um teatro de urgência, convoluto e abismal. Um teatro absolutamente sintonizado com a velocidade dos fluxos de informação, com o trinado frenético dos aparelhos eletrônicos e com o amor amorfo de uma geração que não desaprendeu a sentir.

Direção e Dramaturgia: João de Ricardo e Bruno Gularte Barreto
Performer: João de Ricardo
Iluminação: Carina Sehn
Sonoplastia: Douglas Dickel
Vídeos: Bruno Gularte Barreto e João de Ricardo
Câmera, Assistência geral e de multimídia: Pedro Karam
Assistência e finalização de multimídia: Caroline Barrueco
Produção e Assistência de Direção: Sissi Venturin

2 Comentários leave one →
  1. maio 24, 2010 7:05 am

    =D
    muito afudê que tu escreveu! vou repassar pra galera!
    BEijos
    =D

  2. tati rosa permalink
    agosto 27, 2010 9:29 pm

    muito legal!

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