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TEDxAmazônia: ideias e ideais no coração das trevas

novembro 16, 2010

Nos dias 6 e 7 de novembro de 2010, vivi a privilegiada experiência de estar entre os cerca de 500 participantes do TEDxAmazônia, um evento extremamente empolgante e que consegue criar uma atmosfera de pura cooperação, na qual a boa vontade reina, o bom-dia é sincero e os sorrisos abundantes. Tive o privilégio de participar também do TEDxSãoPaulo, em 2009, que me possibilitou experimentar pela primeira vez as conversas, encontros e ideias que fazem do formato TEDx um sucesso. Licenciados pelo TED original, lar das ideias livres e inspiradoras, os TEDx são eventos independentes, organizados localmente. Dá um pulinho para ler meu relato totalmente subjetivo e nada linear sobre a experiência.

Desenho de Mila Motomura, produzido in situ

Os organizadores do TEDxSãoPaulo e do TEDxAmazônia são os mesmos, e ninguém no Brasil faz isso melhor que eles. Com um conselho formado por mentes fantásticas (inclusive muitos dos palestrantes do TEDxSP 2009), os esforços da equipe (encabeçada pelo papai @haraujo, enfant terrible, e pela engenhosa e letal @liascava, ambos da Webcitizen) são mais que louváveis, em um país onde as barreiras são muitas os degraus da ascensão social são íngremes. O fato de que os TEDxsters pagam apenas pelo seu transporte até o evento é um golpe de ar fresco na exclusividade dos espaços da elite. O que difere essa equipe organizadora dos outros TEDx que tenho visto é uma saudável dose de ambição: trata-se de um grupo de jovens altamente talentosos, bem relacionados e movidos por um sonho de melhorar as coisas. O TEDxAmazônia foi mais que simplesmente um TEDx: foi um TEDx para ensinar ao TED-pai como se faz a coisa. Mesmo diante de desafios como a seca histórica do Rio Negro (15 metros abaixo dos níveis normais), a produção, em parceria com trabalhadores locais extremamente dedicados e as formiguinhas da Colmeia, fizeram acontecer um momento histórico em um local que é central para a discussão da qualidade de vida para todas as espécies, tema do evento.

Dentro da selva, somos infinitamente mais vulneráveis; "a floresta tem mais olhos que folhas"

Simplificando afu, ser selecionado para um desses TEDx é de certa forma ser selecionado para a Liga da Justiça. Há um forte senso de comunidade e possibilidade de cooperação através do qual a democracia se torna uma coisa muito mais frutífera e eficaz. Todas as regras sociais são suspensas e é impossível não ter uma conversa interessante com o estranho à sua frente. A verdade é que, em espaços como esses, os estranhos nunca foram estranhos: há, na exclusividade da experiência, uma cumplicidade silenciosa ditando que, se estamos todos ali, somos eleitos. O Chris Carlsson, grande pensador urbano de San Francisco e criador da Massa Crítica, falou corajosamente sobre essa sensação de ser “um dos eleitos” no blog dele — embora no caso dele, como palestrante, a coisa seja muito mais envaidecedora. Diferentemente dos palestrantes, nós éramos uma plateia mais ou menos homogênea, formada em grande parte (minha impressão foi de ao menos 3/4) por profissionais de comunicação social: pessoas altamente informatizadas, portando suas maçãs cintilantes por toda parte. Acho que, em parte, essa homogeneidade incômoda é fruto de uma maior divulgação das inscrições para o evento no meio da comunicação social e os meios ditos culturais, até pelo espírito inicial do TED: Technology, Entertainment, Design. Espero que, nas próximas edições, as inscrições sejam mais heterogêneas e isso retorne em uma maior diversidade dos participantes.

Lama Padma Samten e Randy Borman fazem o cumprimento especial da Liga da Justiça

Pessoalmente, tive uma experiência totalmente mágica, na rabeira de uma insônia de 4 noites, que me deu um combustível mental inestimável e muitos bons momentos. No meu trato social diário com o mundo exterior, me sinto uma freak muito frequentemente. Lá, conversei sobre assuntos muito importantes (para mim) com gente que, ao contrário do que acontece normalmente, tinha ideias muito parecidas com as minhas. Naturalmente, esse tipo de afinidade natural com um zeitgeist compartilhado ainda está criando uma cisão de influência muito forte sobre quem eu sou e quem quero ser, e toda aquela baboseira de quem vai fazer 30 anos mês que vem *pisca. Mas o fato é que, quando cheguei na amazônia, eu esperava um encontro com o coração das trevas. Uma mistura de xamanismo com povo da floresta, com cheiro de mato. Como brasileira, mestiça, nascida na classe operária e criada no platiníssimo Rio Grande do Sul, o peso simbólico de estar na amazônia era imenso. A expectativa do desconhecido absoluto era intoxicante.

Amazon Jungle Palace, o local do evento

No entanto, logo chegando ao hotel próximo ao píer para tomar um café e aguardar o iate que nos levaria ao Amazon Jungle Palace, ficou claro que a experiência não seria tão radical. Um grupo de WASPS falava inglês e bebia drinks coloridos enquanto um DVD do rei Ray Charles era reproduzido em uma TV de plasma. Os preços pareciam ser todos calculados sobre o dólar e os funcionários — ao contrário do Amazon Jungle Palace, onde todo mundo era adorável — nos receberam com um desdém visível na demora e no muchôcho. Ali no paradisíaco Hotel Tropical, ser brasileiro era claramente uma desvantagem. Por sorte seguimos logo para o barco, que fez em 2 horas um trajeto de 40 minutos por conta da alarmante seca do Rio Negro de que já falei. O pôr-do-sol no Rio Negro é deslumbrante, e tinha umas pinceladas do de Porto Alegre, no Guaibão véio de mi corazón.

Pôr-do-sol manauara, vista do resort idealista

Mas já no primeiro dia, durante um intervalo, o coração das trevas deu seu recado e disse a que veio. Estávamos todos ali discutindo formas de proteger a amazônia quando ela, por cerca de 20 minutos, teve a plena atenção de todos. Uma chuva violenta e omnidirecional lavou a área coberta usada para as refeições. Inspirados pela fala da über-fófis Deise Nishimura, muitos dançavam na chuva. Os funcionários do hotel corriam com sombrinhas, tapetes, panos e lonas. Eu fiquei ali, meio coberta, meio na chuva, pensando que interessante isso de estarmos, nós mesmos, tentando nos proteger da amazônia.

Magnólio de Oliveira, sempre malemolente, atravessa o aguaceiro

Durante o debate que seguiu, muito foi dito sobre o assunto para engrossar o caldo dessa discussão. O genocídio das tribos indígenas como os Kawaiha, denunciado  por Felipe Milanez, e a extrema complexidade do trabalho do documentarista Vincent Carelli, que está formando uma geração de índios para documentar sua cultura, memória e luta. O trecho do documentário exibido por Carelli, mostrando um discurso altamente impactante e complexo, arrancou risos (d)e desconforto da plateia. Nesses momentos, penso, é que o formato TED mostra seus limites. Um tempo a mais para debater aqueles 3 minutos de filme teriam feito muita diferença para garantir um entendimento mais homogêneo das questões que o vídeo, dentro do contexto, levantava.  Em minha opinião, o trabalho de Vincent Carelli foi o momento mais complexo da conferência. Se alguém quiser falar sobre isso, por favor, comments ou email ou twitter. Preciso discutir aquilo com alguém.

Vincent Carelli devolve aos índios a possibilidade de cuidar de sua cultura

A ideia de que as pessoas ainda estão em modo jiboia, “digerindo” o conteúdo intelectual do TEDxAmazônia, é bem visível nas manifestações no Twitter. A incrível diversidade dos palestrantes gerou momentos muito especiais. Pra começar, uma partitura corporal e simbólica de Antonio Nóbrega, que terminou em ciranda e foi seguida pelo silêncio e pela eloquência do Lama Padma Santem: tudo altamente catártico.

Todas as pessoas com quem falei se emocionaram com a sublime abertura de Antonio Nóbrega

Me tocou profundamente a exortação de desobediência civil urbana organizada na palestra do Chris Carlsson (que pode ser lida aqui, na íntegra); no domingo ele gravou uma mensagem para o pessoal da Massa Crítica em POA, além de outras mensagens, para o Teorema do @marcelonoah. Ouçam a mensagem dele pros portoalegrenses:

Outro ponto alto foi a juxtaposição corajosa e necessária da fala de Suely Carvalho, parteira e defensora do parto natural e do pacto de responsabilidade entre homem e mulher na chegada dos bebês ao mundo, com a de Diana Whitten, que documentou o trabalho do barco holandês Women On Waves, que oferece abortos em águas internacionais e facilita o acesso a informações sobre abortos seguros em países em que o aborto é criminalizado (como é o caso do Brasil). Depois do recente pesadelo eleitoral brasileiro, durante o qual, no segundo turno, o aborto foi a vaca sagrada da moralização, foi revigorante estar em um espaço que abriu com honestidade esse diálogo. Talvez por estar acostumada às paixões eleitorais, boa parte da plateia não simpatizou com a fala sóbria e factual de Diana sobre a hipocrisia da legislação sobre o aborto em países como o nosso e as milhares de vítimas dessa moralização repressora.

Suely fechou sua fala dizendo que a vida é um milagre

Diana Whitten adotou uma abordagem séria e factual

Alexandre Seiqueira, fotógrafo, mostrou como usou a fotografia para registrar e recuperar a memória de um vilarejo no Pará, e me levou às lágrimas.

O art-hacker Zach Lieberman emocionou todo mundo com sua experiência de financiar coletivamente a produção de um eye-writer de baixo custo para ajudar o grafiteiro de Los Angeles Tempt (paralisado por uma doença degenerativa) a desenhar com os olhos nos prédios da cidade. Neste vídeo aí embaixo ele fala sobre esse e outros projetos.

Bernardo Toro (educador e pensador multidisciplinar colombiano, super-bonachão) fez um apelo ao cuidado, em uma apresentação totalmente relevante e necessária. Depois, tive a chance de conversar e beber algumas caipirinhas com ele, o que foi tão inspirador quanto assistir a sua fala.

O ornitólogo Pedro Lima é um tipo passional e implacável, daqueles que metem o pé na porta e o dedo na ferida. Sua fala foi uma das mais relevantes para o tema da qualidade de vida para todas as espécies, e sua experiência demonstra o poder das comunidades na preservação das espécies locais e o cinismo das entidades ambientais na hora de engajar a população local, muitas vezes socialmente carente, na briga pela preservação das espécies nativas. Foi absolutamente brilhante.

Pedro Lima não mede palavras para falar do elitismo com que o discurso ambientalista exclui as comunidades locais, exemplificando o que Paulo Saldiva chamou, durante o TEDxSP 2009, de "racismo ambiental"

A mera presença do poeta Thiago de Mello, um dos últimos (senão o último) grande poeta brasileiro vivo, foi o suficiente para conferir ao encontro uma expressão histórica, local e política, enquadrando de forma muito oportuna o que estava sendo dito e planejado ali. Como muitos, fiquei em volta dele para escutar as anedotas. Valeu cada segundo.

Antonio Donato Nobre explicou porque a América do Sul não é desértica, chamando atenção para o poder das árvores nas variações climáticas. Além disso, ele disse uma frase que adorei, atribuída aos índios: “a floresta tem mais olhos que folhas”. Embora durante as travessias noturnas não fosse uma ideia muito reconfortante, foi importante sentir isso em primeira mão, dentro da floresta.

Antonio Donato Nobre falou do "rio verde" que tem poder de desertificar ou regenerar

A bióloga Joan Roughgarden, que estuda os perfis de gênero em diversas espécies, foi também uma fala especial para mim, uma vez que toda sua pesquisa diz respeito às ideias binárias de gênero e sexualidade que insistimos em manter.

O fechamento do evento ficou por conta da transformadora fala de Gordon Hempton, que me tocou de um jeito muito profundo (that’s what she said, tô sabendo). Ativista contra a poluição sonora e caçador de cantos de aves, ele mostrou uma sensibilidade incrível ao traduzir os cantos de pássaros e resignificar a audição humana como instrumento de sobrevivência. A partir do canto de um passarinho australiano, ele contou um segredo muito importante: amor e risco são inseparáveis. Antes de começar, Hempton pediu, ao invés de aplausos, silêncio. O final de sua fala teve um elemento meio John Cage, muito interessante para perceber a forma como as pessoas estão enredadas nas estruturas institucionais. Assim como, antes que o padre diga “eu vos declaro…” o casal tem dificuldade em internalizar o matrimônio, antes do aplauso a multidão não internaliza o fim da palestra (e mais, de dois dias inteiros de evento!). Meia dúzia de gatos pingados aceitaram o desafio de Hempton, mas a esmagadora maioria permaneceu na segurança de seus assentos, aguardando para o momento de aplauso final de que não abririam mão nem com banda de música.

É na cabeça do povo que fermentam as ideias da terra

Falando em música, aliás, recomendo FORTEMENTE a audição deste disco do Lucas Santtana, que dialoga com uma tradição de 50 anos de voz e violão na música brasileira, ecoando respeito, mas “sem nostalgia”.

Teve muito mais coisa bacana: Magnólio hackeando o Michael Jackson, Orquestra Barroca, André Abujamra fazendo sua mágica, Carla Mayumi, da Box1824, desvendando o sonho brasileiro, Edgard Gouveia Jr. conquistando o coração da rapazeada para salvar os Kawaiha, Hugo Penteado desconstruindo a lógica irracional da economia, o engenheiro Zobe e a qualidade de vida que se mede nos sorrisos, o peruano Julio Chang e sua revista Etiqueta Negra, Leinad Cabogim e o abraço na orla, o testemunho comovente do líder seringueiro Manoel Cunha, o líder indígena Randy Borman e sua história de luta pela terra e pela cultura, o projeto de relacionamento homem-onça de Silvio Marchini, os Sampaios de Thiago Vinícius…ih, a lista vai longe.

Para quem aguentou ler até aqui, fica a dica: ano que vem tem TEDxSP — tem que se ligar nas inscrições. E mais: em breve, as palestras do TEDxAmazônia vão começar a ser disponibilizadas, na íntegra, em HD e gratuitamente.

4 Comentários leave one →
  1. novembro 16, 2010 6:57 am

    Muito legal, Mari, parceira virtual de texto. Só discordo no ponto final da palestra do Gordon Hempton. Acho que a galera ficou ali parada curtindo o siêncio em extinção e menos porque esperavam o aplauso final. Minha percepção — ou pelo menos o que eu fiz.
    abraço
    Rodrigo

    • novembro 16, 2010 1:37 pm

      Rodrigo,

      Minha dúvida é: porque aplaudir, então? Quando o cara tinha entrado em cena já avisando que não queria aplausos? Desde o início ele propôs a troca dos aplausos pelo “ouvir”. E porque ficar ouvindo dentro do auditório, se a fala era toda centrada nos pássaros e nos sons que encontraríamos longe dali? Me pareceu que o aplauso marcou uma diferenciação entre “estamos ouvindo” e “agora acabou a palestra”, que era justamente o que o Hempton tentou evitar fugindo dos abraços. Acho que a ideia daquele final era evitar uma separação entre TEDx e não-TEDx na vida das pessoas, para que elas começassem ouvindo e caísses direto em suas vidas. Claro, a leitura do comportamento é subjetiva e arriscada, mas minha impressão foi de que as pessoas realmente não conseguiram sair antes de aplaudir, mesmo (também, depois de dois dias daquilo, é compreensível). Eu confesso que estive entre os primeiros a sair, mas a massa irredutível me deixou tão confusa e desconfortável que depois de um tempo voltei.

  2. sérgio permalink
    novembro 18, 2010 3:49 am

    Oi Mariana

    Muito legal o teu relato do evento. Me diz uma coisa, sabe como faço pra linkar diretamente pro áudio do Chris Carlsson? Queto colocar no blog da Massa Crítica Porto Alegre.

    Abraço

Trackbacks

  1. O que eu faço não é o que eu sou: Chris Carlsson no TEDxAmazônia | Massa Crítica – POA

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