Porcina baila el tango (ou como deixei de me preocupar e aprendi a amar a gripe suína)

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O porco

Cabe dizer que o porco sempre foi meu animal totêmico (ok, talvez não sempre mas desde os 13 anos com certeza). Adoro porquinhos, sejam eles de verdade ou de pelúcia, em foto ou em fedor. Uma vez comprei uma agenda de porquinhos, caríssima. Tinha uma foto de um porquinho para cada semana do ano. E até hoje acho que o chovinista, porquinho do cascão na turma da mônica, dá de dez no bidu (aquele chato de galochas). Mas não era exatamente essa a história que eu queria contar.

A viagem

Há cerca de cinco anos eu venho me obcecando cada vez mais com conhecer Buenos Aires. Buenos Aires parecia a nova São Paulo (a impressão era de que, mais cedo ou mais tarde, todos estariam morando lá), porém com charme, requinte, segregação dos não-fumantes, tango e sessões de cinema de madrugada. Y muchos otros mimos. Mas os anos iam passando e a viagem ia sendo transferida para um futuro cada vez mais incerto. Até que, quando decidimos casar (Ciscai et moi) ficou decidido desde sempre que a lua de mel seria em Buenos Aires. Isso até a crise financeira chegar lá em casa e acharmos melhor cancelar. Inesperadamente recebi uma ótima propo$ta e a viagem voltou ao cardápio. Foi quando, aos 69 do segundo tempo, alguém me fala da gripe suína. Recancelei a lua-de-mel mas ganhei uma obsessão.

A investigação

Veja bem, não é que eu não tivesse ouvido falar na gripe suína. Simplesmente não me aprofundara no assunto, sou uma leitora voraz de manchetes, e achei que o nome da doença era auto-explicativo. Era como a gripe aviária, só que dessa vez num bicho um pouco maior (a Carol Andreis me explicou tudo que ela aprendeu no twitter essa semana, sobre como os bichos maiores tornam o vírus mais forte…esperamos ansiosamente a gripe hipopótica). De qualquer forma, antes de cancelar minha viagem a BA, dei uma pesquisadinha dinâmica, e depois de ver que o caminhoneiro chegado de BA transmitiu pra filha do prefeito senti que a capital argentina estava mais perto que nunca.

A notícia

Aí hoje recebo um e-mail avisando que, em uma determinada agência na Padre Chagas, já há dois casos confirmados e uma quarentena. Prova cabal de que deus odeia os ricos. Não que ele morra de amores pelos pobres, ou pelo povo do Haiti, mas enfim. Minha primeira reação foi a indiferença, seguida de tentativa de fazer piada e do pânico completo. E se eu pegar gripe suína em porto alegre depois de ter cancelado minha viagem à argentina? Oh my.

O retorno

Para voltar para casa, há pouco, tive que usar o trem. E no trajeto pensei sinceramente sobre como sinto falta de usar o trem. Sinto falta de alguns detalhes da vida suburbana, e o trem é o principal deles (fiquem comigo, rapazeada, juro que voltarei ao assunto). No trem as pessoas sentam de frente umas para as outras, e é quase que regra que se observem. Andar de trem é observar e ser observado. É aquela olhadinha pro outro e o rápido desviar de olhos, um instante atrasado. Aglomeração antropológica. O problema aí é a aglomeração. De repente me dei conta que alguém ali podia ter vindo de Buenos Aires, e a cada inspiração sentia o meu corpo tombando com os sintomas da gripe (seria suína? ovina? divina?) bestial. Desci correndo no ponto, jubilante pelo ar livre, mas com o descer de cada degrau rumo ao túnel do metrô minha angústia só fazia aumentar. Cada um que passava me parecia mais suíno que o anterior. Em frente à Igreja Universal, onde eles soltam oxigênio, tentei parar em frente à porta, mas o ônibus chegou, e entrei correndo. No ônibus, menos corrente de ar, mais estranhos. A cada nova inspiração, mais dores no corpo, cabeça e corazón.

O desfecho

Ao entrar em casa, eu já havia desenvolvido todos os sintomas. Corri para a farmácia no frio para comprar um tal spray “primeiros sintomas” a mais de vinte reais. Ainda sinto persistirem os sintomas. Essa é mais resistente, veio do porco. Do porquinho fofo e rosado. Isso é o que eu chamo de uma pandemia pandemônica.

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Pubiscidade

Nos últimos 18 meses assisti mais TV do que nos 8 anos anteriores. Isso não quer dizer que eu não assistia PROGRAMAÇÃO de TV, eu simplesmente baixava o que queria e assistia. E isso me manteve, por muito tempo, protegida dos comerciais. Não vou cuspir no prato que já me encheu a barriga: acho que a publicidade PODERIA ser uma área muito interessante. Mas continuo me chocando quase que diariamente com o nível dos comerciais.

Um fenômeno interessante que tenho observado é como os publicitários recorrem à humilhação para vender coisas a mulheres. E a escatologia também está em alta. Com Activia você vai cagar duas vezes seu peso diariamente, sua anal-retentiva! Uma marca branca de desodorante “acaba com qualquer mulher” (e faz com que ela ganhe o desprezo da Ana Hickmann).

Mas o comercial abaixo é simplesmente o pináculo da combinação entre humilhação e a escatologia. Nesse comercial de um “sabonete íntimo” (ah, o eufemismo) a  tal Thalita Rebouças (de quem eu pessoalmente nunca ouvi falar) invade a casa de duas meninas e manda elas LAVAREM A BUCETA.

Uma análise superficial revela diversas premissas interessantes dessa peça. Um dos conceitos em jogo é o de que garotas que fazem chapinha têm a buceta fedida. A chapinha, que é uma notória arma usada pelas meninas para se sentirem mais seguras, é colocada como superficial. O importante é ter a buceta cheirosa.

Para “vender o peixe”, a idéia subjacente é a de que um banho normal não é o suficiente para manter suas partes íntimas limpinhas. Só o sabonetinho de buceta é capaz de salvar as garotas da má fama que vem com o odor de peixe podre (alguém pensou clamídia?).

O lance é também, naturalmente, humilhar as meninas, que são expostas a uma câmera estilo “reality show”, enquanto a cruel apresentadora, ao dirigir-se ao câmera-man, enuncia: “Vamos ver se as meninas estão se cuidando?” querendo dizer “Vamos ver se a buceta delas está limpa ou não?”.

O ápice da humilhação acontece quando a “apresentadora” grita para as duas: “Meninas, já pro banho”, um enunciado que as reduz de adolescentes a crianças, colocando a mulher mais velha (quem essa Thalita Rebouças pensa que é? Pelo nome eu diria que já é bem rodada.) na posição de ensinar às garotas os truques da mulher que dá pra todo mundo. Tipo “Seguinte, gurias, se vocês quiserem dar geral, tem que tomar banho com esse sabonetinho aqui ó. Senão todo mundo vai falar que vocês são fedorentas e aí não adianta hidratante nem chapinha”.

Agora me digam se uma coisa dessas não é ultrajante. Me digam se eu é que estou louca.