A tradução como gesto textual

jerome

De vez em quando alguém me pergunta, na faculdade, porque eu faço curso de tradução (há milênios, inclusive, mas o fim se aproxima). Quando estou de bom humor, respondo a verdade: sou uma daquelas pessoas que queria ser tradutora quando crescesse.

Desde que comecei, aos 17, a traduzir uns poemas e sonhar em ser “Irmãos Campos-Rimbaud-John Lennon” da contemporaneidade (sempre megalômana), mudei muito a forma de pensar sobre o ofício. Lembro com saudade da disciplina de Linguística e Tradução do querido Prof. Pedro Garcez, que na época explodiu minha cabeça com um mundaréu de não-obviedades inestimáveis que me obrigavam a rever o ideal. Hoje, muitos anos e milhões de palavras depois, cheguei ao que eu considero ser minha teoria da tradução, e gostaria de compartilhá-la com vocês.

Em primeiro lugar, quando falo de tradução estou falando de maneira geral, não me referindo somente à tradução literária, como é comum nessas conversas de “alto nível” sobre o assunto. O processo de traduzir um poema e um contrato tem muito mais em comum do que pensamos, embora os riscos e pormenores sejam imensamente diferentes. Enfim, vamos lá.

thedabaraMinha tese é a de que o ofício do tradutor é muito semelhante ao ofício do ator. O tradutor é um ator do texto. Ator é o agente, o cara que atua, que desempenha uma ação.

O ofício do ator sempre me pareceu fascinante, e me parece que o é para a maioria das pessoas. Atores e atrizes povoam nosso imaginário, de Theda Bara a Kate Winslet, de Rodolfo Valentino a Adrian Brody. E apesar de estar em desuso, engolido cada vez mais pela velha onda de empregar modelos ao invés de atores em produções dramáticas, o ofício do ator está longe da extinção. Há grandes atores, ainda. O mundo precisa deles, mesmo que sejam feios. Mesmo que estejam velhos e se recusem a usar botox (apesar de que a Fernanda Montenegro sucumbiu).

hamlet-48A diferença entre um ator “bom” e um ator “ruim” (os modelos de que já falei) é que o ator ruim finge fazer algo, enquanto o ator bom torna-se esse algo. E isso não acontece por talento. O cara pesquisa, estuda, se prepara, e encontra algo dentro da sua experiência de mundo que abre a porta para que ele se torne aquela coisa. Não importando o “método” do ator, para a catarse do público, para que seja eficaz a empreitada dramática, não basta ser convincente, tem que ser NATURAL. Quando o espectador vê o gesto do ator como verdadeiro, o objetivo foi atingido, e a platéia fica contente, satisfeita e certa de que seu dinheiro (ou tempo) foi bem investido.

Pois bem, a tradução funciona com um processo muito semelhante, ao meu ver, mas ao invés do gesto físico, do som físico, da presença física, nosso ofício se esconde na imaterialidade da página escrita em uma tela. O texto de partida é o material de estudo, as referências, a observação. No último ano, tive o prazer de trabalhar com uma grande profissional da escrita, minha querida chefinha, a Claudia Buchweitz (que coincidentemente é casada com o professor que explodiu meu cérebro lá nos idos de 2004), e observar o método de trabalho dela me deu uma nova perspectiva sobre o que é “fazer um bom trabalho” em tradução. Da forma como o vejo, o ofício do tradutor depende de sua capacidade de ver e pesquisar além das palavras do texto, encontrar em sua visão de mundo um espaço para toda essa carga de informação e produzir com segurança (uma segurança embasada por muita pesquisa e preparo, como os bons atores) um texto natural, verdadeiro. O tradutor-modelo finge o gesto para se fazer passar por algo que não é, enquanto o tradutor-ator, ciente do seu ofício, torna-se algo que não é, ainda que pela duração do trabalho.

skeleton_at_a_computerNão estou tentando sugerir que toda tradução é um trabalho criativo. Pelo contrário, minha proposta é bem mais simples. Acredito apenas que, para produzir um texto natural, para saber onde está “faltando uma conjunção”, onde é necessário dividir uma frase, ou inserir uma explicação, é necessário colocar-se na pele de autor. Saber o suficiente sobre o assunto para entender qual é o gesto textual necessário para que o texto cumpra seu objetivo (que no caso da literatura é catarse, mas no caso de um contrato pode ser, simplesmente, expressar a melhor imagem do cliente). Em termos mais técnicos, isso tudo pode ser destrinchado, claro: gênero, sintaxe, registro, terminologia. Mas o processo intuitivo é também essencial na trajetória das pesquisas e nos caminhos lógicos que levam às escolhas. A naturalidade não pode ser ensinada através de polígrafo, seu entendimento real se dá na interação com cada texto.

Pretendo qualquer hora dessas ter tempo para elaborar mais sobre o assunto, mas por enquanto chega. Talvez caiba agradecer aos meus mentores profissionais e colegas pela oportunidade de estar fazendo o que eu queria fazer quando crescesse. E já que estamos nessa onda de thanksgiving, agradeço também à consciência aleatória do caos, que me permitiu conhecer e trabalhar com as pessoas brilhantes que me acompanham nessa brincadeira.

UPDATE: A Carol Alfaro já tinha divagado sobre o assunto, em 2006. E o grande Danilo Nogueira tocou na ferida ainda em 2008. Pensamentos flanam. 🙂

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MATRIMÔNIO

MATRIMÔNIO

Gregory Corso (traduzido para o português por M.D. Bandarra, 1998)

(publicado originalmente no site traição)

Devo casar-me? Devo ser bom?
Assustar a moça da porta ao lado com meu terno de veludo e capote faustoso?
Não levá-la ao cinema mas aos cemitérios
contar tudo sobre banheiras de lobisomem e clarinetes bifurcados
então desejá-la e beijá-la e todas as preliminares
e ela indo tão longe e eu entendendo o porquê
não me zangando e dizendo Você deve sentir! É lindo sentir!
Ao invés tomá-la em meus braços recostar em uma velha lápide encurvada
e cortejá-la toda a noite as constelações no céu-

Quando ela me apresentar a seus pais
coluna alinhada, cabelo enfim penteado, estrangulado por uma gravata
devo sentar-me joelhos unidos em seu sofá de interrogatório
e não perguntar Onde é o banheiro?
Como sentir senão que eu sou, sempre pensando no sabão do Flash Gordon-
Ó que terrível deve ser para um jovem
sentado diante da família e a família a pensar
Nós nunca o vimos antes! Ele quer nossa Mary Lou!
Depois do chá e biscoitos feitos em casa eles perguntam Que você faz pra viver?

Devo dizer-lhes: Eles gostariam de mim, então?
Dizem Tudo bem, casem, nós estamos perdendo uma filha
mas estamos ganhando um filho-
E devo eu então perguntar Onde é o banheiro?
Ó Deus, e o casamento! Toda a família e amigos dela
e só um punhado dos meus, esfarrapados e barbudos
esperam a hora dos drinks e da comida
E o padre! me olhando como se eu me masturbasse
perguntando Você aceita esta mulher como sua legítima esposa?
E eu tremendo o que dizer digo Azeito!
Eu beijo a noiva todos aqueles homens chatos dando tapinhas em minhas costas
Ela é toda sua, garoto! Ha-ha-ha!
E nos seus olhos você poderia ver acontecendo uma obscena lua-de-mel-
Leia o poema completo

A Rosa é Obsoleta*

A rosa é obsoleta

mas cada pétala termina em um corte, a dupla faceta

acimentando as entalhadas

colunas de ar

O corte corta sem cortar

encontra–nada–renova

a si mesmo em metal ou porcelana

pra onde? para o fim–

Mas se há um fim

o começo principia

de modo que tramar rosas

torna-se uma geometria–

Mas nítida e bem-feita, mais cortante, uma figura em maiólica

o prato quebrado

envernizado com uma rosa

Em algum lugar o sentido

faz rosas de cobre

rosas de aço–

A rosa carregava o peso do amor

mas o amor está no fim–das rosas

É no corte das pétalas

que o amor aguarda

Franzido, trabalhado para derrotar

o peso–frágil

escalpelado, úmido, semi-ereto

frio, preciso, pungente

O que

O lugar entre o corte da pétala e o

Do corte da pétala uma linha

principia

que sendo de aço

infinitamente fina, infinitamente

rígida penetra

A Via Láctea

sem contato–se erguendo dela–nem pendurada

nem empurrando

A fragilidade da flor

intocada

penetra o espaço

William Carlos Williams

[traduzido por M.D. Bandarra, em Março de 2004]

27.11.2007

PAGANDO A PUTA*

Tu és um rosbife que comprei
e te recheio com minha própria cebola.

Tu és um barco que aluguei por hora
e te navego com minha raiva até que encalhes.

Tu és um copo que paguei para quebrar
e engulo os pedaços com meu cuspe.

Tu és a grelha em que aqueço minhas mãos trêmulas,
assando a carne até que fique bem suculenta.

Tu fedes como minha mãe sob teu sutiã
e eu vomito em tua mão como vomita um caça-níqueis
suas moedas frias e duras.

–ANN SEXTON, 15 de Julho de 1971

Traduzido por M.D. Bandarra em Fevereiro de 2005

27.11.2006